Uma história sobre encontros, silêncio e o despertar da consciência

Era uma sexta-feira comum, em 1993.

Eu tinha 27 anos, estava divorciado e tentava reorganizar minha vida. Havia concluído a formação como piloto civil, mas, por não possuir o ensino médio, não conseguira a habilitação necessária para exercer a profissão.

Estava desempregado, embora não exatamente sem trabalho. Aprendera programação por conta própria, numa época em que a informática ainda era um território pouco explorado. De dia, desenvolvia sistemas para pequenas empresas. À noite, ministrava cursos de informática.

Curiosamente, sentia constrangimento quando alguém me chamava de professor. Afinal, como poderia ensinar se eu mesmo não havia concluído os estudos?

Naquelas noites, costumava frequentar uma pizzaria próxima à escola. Quase sempre sozinho.

Foi numa dessas sextas-feiras que aconteceu um encontro do qual nunca me esqueci.

Quando pedi a conta, um garçom se aproximou. Era um homem baixo, gordinho, de barba volumosa e aparência bastante peculiar.

— Quero conversar com você — disse ele.

Contou que me observava havia algum tempo, sempre sozinho nas noites de sexta-feira.

— Você é professor, não é?

Fiquei sem jeito. Naquela época, a palavra ainda me parecia um título ao qual eu não tinha direito.

Ele se afastou por alguns instantes e voltou trazendo um livro. A capa estava gasta e as páginas, de tanto manuseio, faziam o volume parecer maior do que era.

Contou que havia sido andarilho durante dez anos e que aquele livro o acompanhara pelas estradas.

Era Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Nietzsche.

— Leia com calma, mas me devolva quando terminar.

Não me lembro de tudo o que conversamos. Lembro-me, porém, da impressão que aquele homem me causou: um antigo andarilho, trabalhando como garçom, oferecia a um professor sem diploma uma das obras mais desafiadoras da filosofia.

Li o livro.

E não entendi quase nada.

Mas alguma coisa nele me capturou.

Entre tantas passagens difíceis, uma ficou comigo: o encontro de Zaratustra com o velho eremita, no início da obra.

Depois de dez anos nas montanhas, Zaratustra decide voltar ao convívio dos homens. No caminho, encontra um santo que escolhera viver afastado da humanidade. O velho lhe explica que ama a Deus, mas prefere manter distância dos homens, que considera demasiadamente imperfeitos, e aconselha Zaratustra a permanecer na floresta, entre os animais, em vez de retornar à sociedade.

Não sei o que compreendi dessa passagem aos 27 anos. Provavelmente muito pouco. Ficou-me, no entanto, a oposição entre os dois: um que encontrara na solidão razões para se afastar, e outro que, depois de viver isolado, queria voltar para compartilhar alguma coisa.

Só décadas depois reparei num detalhe que me escapara naquela noite: dez anos nas montanhas para Zaratustra; dez anos de estrada para o garçom que me entregou o livro.

Ainda penso nesse encontro.

– – –

Algum tempo depois, voltei à pizzaria acompanhado da mulher com quem havia começado a namorar.

Era uma noite de festa, o Baile do Havaí. Ela fora convidada para integrar a comissão julgadora e insistiu para que eu também participasse. O local estava lotado e, para meu constrangimento, fui anunciado como professor e convidado a ocupar um lugar à mesa dos jurados.

Naquela noite, devolvi o livro ao velho garçom.

Ele apenas sorriu, disse “parabéns” e se afastou respeitosamente.

Nunca mais conversamos sobre Nietzsche.

Não sei o que aquele homem pensava, nem por que resolveu compartilhar comigo um livro que parecia tão importante em sua vida. Sei apenas que nunca me esqueci dele.

– – –

A vida seguiu.

Aquela namorada tornou-se minha esposa. Construímos uma família, tivemos quatro filhas e compartilhamos cerca de vinte anos de casamento. Por incentivo dela, concluí o ensino médio e ingressei na faculdade de Direito.

Vieram os negócios, a vida pública, as responsabilidades e as inúmeras ocupações que costumamos confundir com a própria existência. Durante muito tempo, a filosofia permaneceu num lugar discreto da minha vida.

Em 2012, o casamento terminou. Foi uma separação dolorosa, embora tenhamos preservado, ao longo dos anos, uma relação de amizade e respeito. Ela continua sendo uma pessoa importante na minha história, inclusive pelo apoio nos momentos mais difíceis.

Depois do divórcio, conheci uma solidão diferente daquela das sextas-feiras de 1993.

Por volta de 2013, comecei a assistir, à noite, às aulas de filosofia da professora Lúcia Helena Galvão, da Nova Acrópole. No início, buscava companhia para atravessar as noites em que dormir sozinho, com a luz apagada, se tornara difícil.

Mas aconteceu algo curioso. A filosofia, que me encontrara pela primeira vez pelas mãos de um andarilho, voltou a ocupar meu cotidiano.

E, dessa vez, permaneceu.

Percebi que certas perguntas não desaparecem só porque deixamos de formulá-las. Podem atravessar anos em silêncio, até encontrarem condições de voltar à consciência.

Quem sou? Por que faço as escolhas que faço? Quanto daquilo em que acredito realmente nasceu de mim? E qual o sentido de uma existência que, apesar de tantas realizações, continua nos apresentando perguntas sem respostas definitivas?

– – –

Anos depois, vivi uma experiência que alterou profundamente a maneira como eu olhava para mim mesmo.

Fui privado da liberdade e, em seguida, passei a cumprir prisão domiciliar, monitorado por uma tornozeleira eletrônica.

Houve uma manhã, justamente no dia do meu aniversário, que jamais esquecerei.

Acordei com o alarme do equipamento: na noite anterior, esquecera de conectá-lo ao carregador. Estava sozinho na casa onde vivera grande parte do meu casamento e onde minhas filhas haviam crescido.

Olhei para mim, preso a uma tomada por um fio, e chorei.

Senti um desalento que nunca havia sentido. Por alguns segundos, desejei simplesmente não existir.

Mas algo aconteceu logo depois.

Ao desconectar o carregador, olhei para as pernas, para o corpo, e percebi que continuava fisicamente inteiro. Pensei nas inúmeras pessoas que enfrentam limitações muito maiores e, ainda assim, encontram maneiras extraordinárias de viver.

Não sei explicar o que ocorreu naquele instante. Nada do que eu enfrentava estava resolvido. O sofrimento não havia desaparecido.

Mas minha maneira de contemplar a própria existência havia mudado.

E, estranhamente, sorri.

Naquela mesma manhã, veio a notícia de que o equipamento seria retirado. Mais tarde, minhas filhas vieram me buscar para comemorarmos meu aniversário.

Guardo aquele dia não apenas pelo sofrimento, mas por uma percepção que começou a ganhar significado: eu ainda tinha uma vida a viver. E talvez pudesse fazer alguma coisa com o que havia compreendido.

Foi então que o velho eremita voltou à minha memória. Eu não escolhera o isolamento, como ele. Mas, como Zaratustra, percebi que a pergunta decisiva não era quanto tempo ficar ali, e sim o que levar de volta aos outros.

– – –

Desse processo nasceu uma ideia aparentemente simples: compartilhar reflexões que pudessem ajudar pelo menos uma pessoa a voltar para dentro de si.

Não pretendia ensinar ninguém a viver, nem oferecer respostas definitivas sobre a existência. Desejava apenas compartilhar perguntas, experiências e percepções que talvez encontrassem ressonância em outras pessoas.

Comecei escrevendo nas redes sociais. Depois vieram outras plataformas e, em 2019, o blog ganhou espaço no WordPress.

Chamei-o de Inside.

Ir para dentro.

Hoje, ao recordar aquela noite de 1993, percebo o que não poderia compreender então. Talvez aquele garçom não tenha me apresentado apenas um livro. Talvez tenha me mostrado, sem qualquer intenção consciente, que o conhecimento pode chegar pelas mãos mais inesperadas, e que a sabedoria não depende de diplomas, posições sociais ou reconhecimento público.

Não sei se ele compreendia Nietzsche melhor do que eu. Sei que possuía algo que ainda considero precioso: a disposição de compartilhar uma inquietação.

É o que procuro fazer quando escrevo.

Há poucos dias, uma conversa sobre a aparente superficialidade da vida contemporânea trouxe tudo isso de volta. Perguntávamos por que algumas pessoas sentem necessidade de compreender a si mesmas, enquanto outras parecem satisfeitas no conforto de suas certezas.

Não tenho resposta definitiva. Talvez exista alguma predisposição individual; talvez o sofrimento contribua; talvez a educação e os encontros humanos tenham seu papel. Mas começo a suspeitar de algo: o autoconhecimento não nasce necessariamente de um acontecimento extraordinário. Às vezes começa com uma pergunta que não conseguimos abandonar, e que pode nos acompanhar pela vida inteira.

Hoje, já não sinto tanta necessidade de respostas para tudo. Interessa-me mais reconhecer honestamente o que penso, o que sinto, o que ainda desconheço e as contradições que fazem parte de quem sou.

Talvez a consciência não seja um destino ao qual chegamos, mas uma maneira de percorrer a existência.

E, se alguma reflexão publicada neste espaço ajudar alguém a olhar para dentro de si com um pouco mais de coragem e compreensão, já haverá sentido suficiente nesse exercício de escrever.

Afinal, aquele velho garçom não sabia o que seu gesto representaria para mim.

Apenas me emprestou um livro.

E pediu que eu lesse com calma.

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Sou Elizeu

O que posso dizer sobre mim? Sou aquariano, nascido no Sul e criado na Amazônia Ocidental — com os olhos voltados para o céu e o coração profundamente enraizado na terra.

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