Sobre sensibilidade, discernimento e a liberdade de continuar inteiro ao lado de alguém.

Hoje, durante uma escuta, senti necessidade de me despir da posição de quem supostamente sabe. Lembrei-me de Lacan e de sua reflexão sobre o sujeito suposto saber. Naquele momento, não desejava ocupar o lugar de analista, tampouco oferecer respostas. Queria apenas estar presente e, quem sabe, provocar uma reflexão.

Enquanto ouvia, uma questão começou a tomar forma: até que ponto nossa capacidade de compreender a dor do outro pode nos levar a esquecer de nós mesmos?

Há pessoas que sentem antes de entender. Percebem uma mudança no tom de voz, reconhecem um sofrimento que ninguém nomeou, comovem-se com a fragilidade alheia como se fosse a própria. Para elas, a compaixão não exige esforço: é um modo de estar no mundo.

É uma das expressões mais bonitas da sensibilidade humana. E também uma das mais vulneráveis.

Porque compreender a dor de alguém não significa assumir a responsabilidade por ela. A distinção parece simples, mas pode levar uma vida inteira para ser aprendida.

Quando a sensibilidade caminha sem discernimento

Quem compreende profundamente a dor do outro pode, às vezes, começar a justificar comportamentos que lhe fazem mal. Quem deseja acolher acaba assumindo responsabilidades que não lhe pertencem. E quem encontra sentido em cuidar pode, sem perceber, deixar de cuidar de si.

Não necessariamente por falta de inteligência ou maturidade, mas porque a intensidade de um sentimento nem sempre permite enxergar com clareza suas consequências.

Uma das confusões mais comuns sobre o amor é acreditar que sua intensidade comprova sua autenticidade.

Sentir muito não significa amar melhor.

Uma paixão pode ser arrebatadora e, ainda assim, não oferecer condições para uma convivência saudável. Já um amor tranquilo, construído aos poucos, pode revelar uma profundidade que a euforia dos primeiros encontros não consegue alcançar.

O sentimento nos aproxima. O discernimento nos ajuda a compreender se vale a pena permanecer.

Discernir não é desconfiar

Discernir não significa desconfiar de todos, endurecer ou erguer barreiras contra a possibilidade de sofrer. Algumas decepções nos ensinam a enxergar melhor. O risco é permitir que elas nos ensinem a deixar de enxergar as pessoas.

A existência de quem mente não anula a existência de quem se aproxima com sinceridade.

Discernir é reconhecer que cada pessoa carrega sua história, suas limitações e suas contradições. Não precisamos exigir perfeição de ninguém. Mas também não precisamos transformar as imperfeições do outro em justificativas para o nosso sofrimento.

Aceitar alguém como é não significa aceitar tudo o que essa pessoa faz.

A metade que não falta

A ideia de encontrar nossa outra metade pode parecer romântica, mas carrega uma suposição inquietante: a de que somos incompletos enquanto estamos sozinhos.

E se não fosse assim?

E se o encontro amoroso pudesse acontecer entre duas pessoas que reconhecem suas necessidades, mas não atribuem uma à outra a obrigação de resolvê-las?

Nesse caso, amar deixaria de ser uma tentativa de preencher ausências e passaria a ser uma escolha: compartilhar a existência.

Isso não nos tornaria imunes à decepção, ao abandono ou à tristeza. Continuaríamos vulneráveis, porque todo vínculo verdadeiro envolve algum grau de vulnerabilidade.

Mas talvez deixássemos de confundir a possibilidade de perder alguém com a ameaça de perder a nós mesmos.

Sentir sem obedecer

Há algo profundamente libertador em descobrir que podemos sentir sem precisar obedecer imediatamente ao que sentimos.

Podemos desejar e esperar. Podemos nos apaixonar e observar. Podemos compreender a dor de alguém sem assumir a tarefa de salvá-lo.

Diante de uma vontade muito intensa, especialmente quando envolve um relacionamento ou uma decisão importante, talvez valha a pena perguntar:

Estou fazendo essa escolha porque ela realmente faz sentido para mim ou porque, neste momento, sinto uma necessidade irresistível de fazê-la?

E depois:

Se eu esperar alguns dias, essa decisão continuará fazendo o mesmo sentido?

Nem todo sentimento exige uma resposta imediata. Às vezes, o tempo não diminui aquilo que sentimos; apenas nos permite compreender melhor o que estamos vivendo.

A consciência não precisa silenciar a emoção. Precisa apenas participar das escolhas que fazemos a partir dela.

Não se trata de aprender a sentir menos, mas de desenvolver a liberdade de não permitir que a intensidade dos nossos sentimentos decida sozinha.

Talvez seja esse um dos sinais mais discretos da maturidade afetiva: continuar sensível sem se tornar refém da própria sensibilidade.

Amar não deveria exigir que deixássemos de ser quem somos. Tampouco significa viver sem concessões, renúncias ou disposição para acolher o outro. A diferença está em perceber quando a entrega deixa de ser uma escolha e começa a se transformar em abandono de si.

Porque compreender a dor de alguém é uma expressão de amor.

Mas reconhecer a própria dor, e não ignorá-la, também é.

Elizeu Nieser
Psicanalista

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Sou Elizeu

O que posso dizer sobre mim? Sou aquariano, nascido no Sul e criado na Amazônia Ocidental — com os olhos voltados para o céu e o coração profundamente enraizado na terra.

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