Há noites que não terminam quando amanhecem.

Elas seguem dentro do corpo.
Pesam nos olhos.
Embaraçam o raciocínio.
Atrasam a alma.

Tenho vivido dias assim.

Desde a virose do pequeno Junior e sua internação, nossa rotina mudou por completo. Eu e Deise nos revezamos como acompanhantes. Dormimos pouco, mal e em pedaços. Há quase duas semanas nesse ritmo interrompido, como se o corpo já não soubesse mais distinguir descanso de vigília.

E basta uma noite ruim para perceber algo que, em tempos normais, esquecemos com facilidade: sem sono, perdemos muito mais do que energia.

Perdemos nitidez.
Perdemos presença.
Perdemos eixo.

Foi nessa manhã, enquanto esperava o vapor na panela aquecer a comida caseira do Jr — gesto simples, repetido agora três vezes por dia — que uma palavra me atravessou como insight: equilíbrio.

Mas não o equilíbrio fantasioso que costumamos imaginar.
Não essa ideia infantil de vida calma, parada, sem imprevistos, sem dor, sem sobressaltos.

Não.

O verdadeiro equilíbrio não é estagnação.
Não é ausência de movimento.
Não é paz condicionada.

Equilíbrio, para mim, é ritmo.

É a capacidade de continuar, mesmo quando a vida muda o compasso.
É não se desfazer por completo quando o cotidiano perde a forma.
É conseguir retornar ao eixo, ainda que devagar.

Quanto mais penso nisso, mais entendo que o bem-viver exige, no mínimo, três dimensões em relativo acordo: a física, a mental e a emocional. Se essas três encontram algum nível de sustentação, o ser humano suporta com mais dignidade os golpes da vida — inclusive os sociais e financeiros.

Mas basta uma dessas bases ceder para todo o restante vacilar.

E o sono, percebo agora com mais clareza, é uma das colunas invisíveis dessa arquitetura.

Dormir mal compromete o corpo, sim. Mas vai além. Afeta a lucidez. Reduz a precisão. enfraquece o discernimento. Faz da mente um território mais lento, mais confuso, mais vulnerável. Nesses dias, aconteceram coisas pequenas, porém reveladoras: quase causei um acidente no trânsito, falhei em compromissos, deixei passar negócios, cometi erros banais que não combinam com meu ritmo habitual.

A falta de sono não tira apenas a força.
Ela altera a qualidade da presença.

E quando a mente perde energia, tudo aquilo que já estava mal resolvido dentro de nós parece ganhar mais peso. Os restos emocionais, os velhos conteúdos, os excessos acumulados no silêncio do inconsciente — tudo isso encontra menos resistência. A psique, que já é dinâmica por natureza, torna-se ainda mais difícil de sustentar quando o corpo está exausto.

Por isso, talvez, o equilíbrio no plano psíquico seja mais delicado do que no plano físico. O corpo, muitas vezes, responde com algum descanso, melhor alimentação, menos excessos. Já a alma não se reorganiza por decreto. Ela exige escuta. Exige tempo. Exige verdade.

Ainda assim, compreendi algo importante.

Começar pelo físico não é pouco.
É sabedoria.

Coincidentemente, nesta semana, depois de ver que meus exames apontaram pré-diabetes, tomei algumas decisões concretas. Resolvi mudar hábitos. Cortar cerveja. Reduzir pão. Diminuir carboidratos. Não por vaidade. Não por estética. Mas por necessidade de reconduzir o corpo a um ponto mínimo de ordem.

Quero começar por aí.

Quero estar em equilíbrio nessa dimensão.
E quanto à psique, penso que sigo no caminho.
Este texto, talvez, seja prova disso.

Porque equilíbrio não se resume a dieta, disciplina ou autocontrole. Ele atravessa o físico, o mental e o emocional. E nessas três frentes, a vida exige movimento constante, atenção contínua, correções pequenas e permanentes.

No fundo, estamos todos submetidos às mesmas leis da vida.

A roseira no quintal.
O ipê que resiste ao tempo e oferece sombra.
Os animais.
As crianças.
Os velhos.
Nós.

Tudo o que vive depende de algum tipo de equilíbrio para continuar existindo.

Mas o ser humano, curioso em sua pretensão, frequentemente se esquece disso. Alimenta-se mal. Dorme mal. Exagera. Negligencia o corpo. Força a mente. Violenta os próprios limites. E depois se espanta quando a vida cobra de volta a fatura biológica.

Nestes dias dentro do hospital, isso me ficou ainda mais visível.

Vi crianças, jovens, adultos e idosos recorrendo à medicina na tentativa de recuperar o que, em algum ponto, foi perdido: o equilíbrio do organismo, a ordem mínima do corpo, a chance de voltar ao próprio centro.

E nessa manhã em que o Jr receberá alta, fui tomado por uma percepção simples e funda: somos frágeis.

Muito mais frágeis do que gostamos de admitir.

Meu pequeno Junior, com apenas cinco anos, internado pela primeira vez por causa de uma virose mais intensa, me obrigou a olhar de frente para essa fragilidade. Não de forma teórica. Não como ideia filosófica. Mas como realidade viva.

A vida biológica é sensível.
O corpo pede cuidado.
O existir pede medida.

Em geral, grande parte dos nossos sofrimentos físicos tem ligação com desequilíbrios repetidos: alimentação, higiene, rotina, negligência, excessos, desatenção.

Talvez a maturidade comece quando deixamos de agir como se fôssemos superiores às leis da vida.

Porque não somos.

Somos corpo.
Somos mente.
Somos emoção.

Às vezes, não adoecemos apenas por excesso de dor.
Adoecemos por excesso de descuido.

E talvez o verdadeiro equilíbrio não seja viver sem abalos,
mas ouvir a tempo o que o corpo, a mente e a alma
já vinham dizendo em silêncio.

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Sou Elizeu

O que posso dizer sobre mim? Sou aquariano, nascido no Sul e criado na Amazônia Ocidental — com os olhos voltados para o céu e o coração profundamente enraizado na terra.

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