Nesta tarde, sentei-me na edícula enquanto aguardava o horário da corrida. O dia, que até o meio-dia estava quente e agitado, havia mudado. Uma brisa agradável tocava meu rosto.
Peguei o controle da televisão para ouvir uma música instrumental relaxante, algo que considero parte da preparação para correr. O primeiro vídeo que apareceu trazia uma reflexão sobre os arcontes. Em certo momento, ouvi a frase:
“O estado de plenitude: nada lhes falta porque sua alma não está fragmentada.”
Voltei alguns segundos e ouvi novamente.
Aquelas palavras pareciam encontrar algo que já me acompanhava desde a manhã: a sensação de estar em um estado no qual a mente já não reconhece a falta.
Não porque tenhamos tudo o que desejamos, mas porque o desejo deixou de nos conduzir.
Deixei o vídeo pausado e peguei o celular para escrever.
Tenho me sentido assim. Por vezes, até resisto a pensar demais no amanhã. Não por medo do futuro, mas porque o presente, quando verdadeiramente vivido, parece não pedir complemento.
Talvez isso não venha da mente racional. É mais parecido com uma ressonância interior, como se a própria alma reconhecesse o lugar em que está e dissesse:
Nada precisa mudar agora.
Enquanto escrevia, o pequeno Jr., que não dormiu à tarde, continuava agitado. A todo instante vinha até mim querendo uma atividade diferente.
Olhei para seu rosto e disse:
— Ei, jovem mente, acalme-se um pouco. Interrompa por um instante seus desejos e perceba como este momento é especial. Faça o que fizer, mas faça por você mesmo. Ou, simplesmente, não faça nada.
Ele reuniu os brinquedos no centro do espaço e logo os abandonou novamente. Talvez já tivesse feito aquilo inúmeras vezes durante o dia.
Pensei, então, que as almas dominadas pelo desejo talvez se pareçam com crianças inquietas. Começam algo, abandonam, experimentam outra coisa e correm em direção ao que vem depois.
Não conseguem repousar no que existe.
Minha alma, porém, parecia me dizer:
Sinta e viva.
Vencer ou não a corrida desta noite pouco importa. O que importa é sentir a tarde, perceber a brisa, reconhecer que este instante já está inteiro.
Embora fosse sábado, passei parte do dia respondendo a clientes que estão em campanha. Seus desejos aparecem claramente em cada conversa: vencer, avançar, conquistar.
“Professor, o que achou da fala?”
“O senhor pode analisar a repercussão da imprensa?”
É a rotina de um consultor político em ano eleitoral.
Enquanto eles me falavam sobre vencer, eu percebia que, naquela tarde, não precisava vencer nada.
As mensagens chegavam e eu respondia. Algumas vezes com um conselho; em outras, com sugestões. Procurava, sobretudo, fazer cada cliente refletir.
Depois, retornava ao meu silêncio.
Também preparei, como sempre, o almoço para Deise. Jr. continuava correndo de um lado para outro. O telefone seguia tocando. A corrida ainda aconteceria.
Nada estava parado.
E, ainda assim, havia paz.
Talvez a plenitude comece quando os desejos deixam de dirigir nossas escolhas.
Não significa abandonar sonhos, planos ou caminhos. Significa apenas não exigir que a vida seja diferente para que possamos reconhecê-la como suficiente.
Jr. não precisava se acalmar para que eu estivesse em paz.
O telefone não precisava silenciar.
A corrida não precisava ser vencida.
O futuro não precisava oferecer garantias.
A tarde já estava inteira.
Talvez existir conscientemente seja isso: permanecer no que se apresenta sem transformar o instante em uma sala de espera para algo melhor.
Afinal, plenitude talvez não seja possuir tudo.
Talvez seja o momento em que a alma, finalmente reunida em si mesma, olha para a vida e reconhece:
Isto basta. Nada falta.

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