Ontem, enquanto lia a metáfora do pombo que caminha sem parar sobre grãos de milho sem conseguir se saciar, fiquei pensando na maneira como nós também atravessamos a vida.
A gente passa tanto tempo olhando para o próximo grão que, às vezes, esquece que já está sobre uma grande colheita.
Passamos boa parte da existência desejando o próximo passo, a próxima conquista, o próximo reconhecimento, a próxima segurança. E, nesse movimento constante, corremos o risco de transformar a vida em uma espera permanente.
Schopenhauer dizia que o ser humano vive entre a dor de desejar e o tédio de possuir. Quando não temos, sofremos pela falta. Quando conquistamos, logo nos acostumamos e passamos a desejar outra coisa.
Talvez a maturidade consciente comece justamente quando percebemos esse ciclo.
Não se trata de abandonar os sonhos, nem de deixar de crescer. Sonhar faz parte da vida. Construir, também. O problema é quando a busca pelo próximo grão nos impede de enxergar o chão fértil onde já estamos.
Há momentos em que a vida não está pedindo mais pressa, mais conquista ou mais esforço.
Está pedindo presença.
Presença para reconhecer o que já foi construído.
Presença para valorizar quem caminha ao nosso lado.
Presença para agradecer o que hoje sustenta nossos passos.
Presença para entender que nem toda felicidade mora no futuro.
A maturidade consciente não é deixar de desejar. É aprender a desejar sem se perder de si.
É seguir caminhando sem desprezar o caminho.
É buscar o próximo grão sem esquecer a colheita inteira que já existe debaixo dos nossos pés.
Porque talvez a vida não esteja sempre nos chamando para conquistar mais.
Talvez, em alguns momentos, ela esteja apenas nos convidando a perceber melhor.
Não é sobre parar de sonhar.
É sobre não esquecer de viver enquanto caminhamos.

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