Nesta manhã, enquanto aguardávamos o elevador, olhamos para os nossos pés calçados de pantufas e começamos a rir.
Não havia nada de extraordinário na cena. Apenas dois pares de pantufas, um corredor, uma espera breve e ela fotografando nossos pés como quem registra um pequeno segredo da vida comum.
Mas talvez seja justamente aí que a vida se revele com mais verdade: não nos grandes acontecimentos, não nas datas marcadas, não nas conquistas anunciadas, mas nesses instantes simples em que, por alguma razão, percebemos que não falta nada.
Conversávamos sobre o que realmente importa. Acho que dissemos algo como:
“O que importa é estar aqui, vivendo este momento.”
E era isso.
Não falávamos do futuro. Não fazíamos planos. Não havia ansiedade sobre como estaremos daqui a um ano, nem sobre o que ainda precisamos conquistar, mudar ou resolver. Havia apenas uma sensação silenciosa de presença.
Pensei que, se no próximo ano existisse uma manhã como esta, talvez nada precisasse ser diferente. Bastaria estarmos ali novamente, do mesmo modo: juntos, rindo de algo simples, vestidos de cotidiano, habitando o presente sem pressa de escapar dele.
Foi então que me veio à memória um antigo provérbio atribuído à sabedoria chinesa:
“Se quiser ser feliz por uma semana, case-se.
Se quiser ser feliz por um dia, mate um porco.
Mas, se quiser ser feliz por toda a vida, plante um jardim.”
Há felicidades que são reais, mas passageiras.
A empolgação de uma compra nova.
A alegria de uma festa.
O prazer imediato de uma conquista rápida.
A euforia de receber elogios ou atenção.
A sensação de novidade em uma fase que, pouco a pouco, se transforma em rotina.
Tudo isso tem seu valor. Tudo isso também compõe a experiência humana. Mas há uma diferença entre aquilo que nos alegra por instantes e aquilo que sustenta a alma por dentro.
A felicidade mais profunda não costuma chegar com barulho. Ela não exige plateia, aplauso ou cenário perfeito. Muitas vezes, ela se apresenta de forma discreta, quase tímida, vestida de simplicidade.
Às vezes, ela aparece em uma mesa compartilhada.
Em um café tomado sem pressa.
Em uma conversa interrompida por risos.
Em uma fotografia sem pose.
Em dois pares de pantufas diante de um elevador.
A felicidade que permanece exige atenção. Exige cuidado. Exige presença.
O amor, por exemplo, é como uma planta. Não basta tê-lo encontrado. Não basta dizer que ele existe. É preciso regá-lo, protegê-lo, observar seus sinais, respeitar seu tempo e cuidar dele todos os dias.
Porque até o amor mais bonito pode murchar quando é abandonado à distração.
Plantar um jardim talvez seja isso: escolher, diariamente, cuidar daquilo que nos dá vida.
É entender que a plenitude não está apenas no que conquistamos, mas no modo como habitamos o que já temos. É perceber que algumas das maiores riquezas da existência não fazem barulho, não pedem destaque e, quase sempre, cabem em cenas pequenas demais para impressionar o mundo.
Mas não pequenas demais para tocar a alma.
Nesta manhã, diante do elevador, nossos pés de pantufa me ensinaram novamente uma antiga verdade: não é preciso muito para ser inteiro.


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