Há poucos dias, durante uma sessão de psicanálise, ouvi de uma paciente algo que continuou comigo depois que nosso encontro terminou.
Os detalhes que trago aqui foram alterados para preservar sua identidade. O que permanece é apenas o núcleo da questão que ela trouxe — e que, de um modo ou de outro, atravessa a vida de muita gente.
Ela relatava uma crise de ansiedade que havia experimentado durante a semana. O que a angustiava não era propriamente um acontecimento concreto, mas a possibilidade de passar a ser tratada pelas pessoas como alguém diferente. Alguém especial.
Perguntei: — Por que a maneira como as pessoas podem tratá-la tem tanto poder para determinar se você se sente bem ou mal?
Sua resposta veio rapidamente.
Ela queria ser uma pessoa comum.
Queria ser tratada como qualquer outra pessoa.
Enquanto a ouvia, percebi que talvez seu sofrimento não estivesse exatamente em ser diferente.
O que parecia assustá-la era a possibilidade de que os outros percebessem essa diferença.
E, percebendo-a, passassem a julgá-la.
Tomei algumas notas durante a sessão, mas uma pergunta continuou comigo depois.
E aqui já não falo apenas dela. Falo de uma inquietação mais ampla que aquele encontro despertou em mim:
Quanto da nossa felicidade entregamos ao olhar dos outros?
Talvez muito mais do que imaginamos.
Desde muito cedo aprendemos que pertencer é importante.
Pertencer à família. Ao grupo de amigos. À escola. À comunidade. Ao ambiente profissional. Aos grupos sociais que escolhemos — ou que nos escolhem.
Nada há de errado nisso.
Somos seres relacionais.
Precisamos do outro.
O problema talvez comece quando pertencer deixa de ser parte da nossa experiência e passa a ser uma condição para estarmos bem conosco mesmos.
Quando precisamos que o outro nos aceite para que possamos nos aceitar.
Quando necessitamos que alguém confirme nosso valor para conseguirmos reconhecê-lo.
Quando ser diferente passa a representar uma ameaça.
Talvez seja por isso que tantas pessoas passam boa parte da vida aprendendo a agradar.
Observam cuidadosamente o ambiente.
Percebem aquilo que esperam delas.
Aprendem quando falar. Quando silenciar. Quando concordar. Quando sorrir. Quando ceder.
E, pouco a pouco, tornam-se extremamente competentes em compreender o que os outros desejam.
Mas algumas deixam de saber o que elas próprias desejam.
Talvez uma das perguntas mais importantes da maturidade seja justamente esta:
Estou vivendo com os outros ou estou vivendo para o olhar dos outros?
Parece uma diferença pequena.
Não é.
É possível amar alguém e ainda assim continuar existindo.
É possível fazer parte de um grupo sem precisar pensar exatamente como ele.
É possível ajudar sem transformar a própria vida em permanente disponibilidade.
É possível discordar sem deixar de amar.
É possível dizer não sem deixar de ser uma boa pessoa.
Mas isso nem sempre é simples.
Porque dizer “não” traz riscos.
O outro pode se frustrar. Pode discordar. Pode afastar-se. Pode deixar de nos admirar. Pode até nos julgar.
Talvez seja justamente por isso que tantas pessoas dizem “sim” quando desejariam dizer “não”.
Nem todo “sim” é generosidade.
Alguns são medo. Medo de rejeição. Medo de abandono. Medo de decepcionar. Medo de perder pertencimento. Medo de deixar de ser necessário.
Existem pessoas que aprenderam a existir sendo úteis.
Estão sempre disponíveis.
Ajudam. Resolvem. Cuidam. Compreendem. Perdoam. Cedem. Servem.
Durante muito tempo, também associei esse comportamento à virtude.
Desde a infância imaginei a felicidade como uma espécie de ideal de vida e, talvez por isso, sempre me interessei pela pergunta sobre o que torna uma existência verdadeiramente boa.
Aristóteles pensava a felicidade — a eudaimonia — não simplesmente como prazer ou satisfação, mas como uma vida realizada por meio da razão e da virtude.
Mas há algum tempo venho me fazendo outra pergunta:
Será que servir ao outro, por si só, nos torna virtuosos?
Hoje penso que não.
Porque é perfeitamente possível servir ao outro e, ao mesmo tempo, abandonar a si mesmo.
É possível parecer generoso por fora e estar profundamente aprisionado por dentro.
É possível dedicar a vida inteira às necessidades das outras pessoas e nunca se perguntar:
E eu?
Essa pergunta costuma causar certo desconforto.
Talvez porque tenhamos aprendido a associá-la ao egoísmo.
Mas cuidar de si não significa considerar-se mais importante do que os outros.
Significa reconhecer uma verdade bastante simples:
você também é alguém de quem precisa cuidar.
Cuidar de si é conhecer os próprios limites.
É perceber aquilo que fortalece e aquilo que lentamente destrói. É reconhecer desejos. É assumir responsabilidades. É fazer escolhas. É sustentar aquilo em que se acredita mesmo quando isso não produz aprovação.
E, algumas vezes, cuidar de si significa desapontar alguém.
Talvez aí esteja uma das experiências mais difíceis da vida adulta:
descobrir que nem sempre podemos preservar simultaneamente nossa consciência e a aprovação de todas as pessoas.
Às vezes será preciso escolher.
E é justamente nesse ponto que aparece a integridade.
Geralmente pensamos em integridade diante de grandes decisões morais.
Dinheiro. Poder. Corrupção. Fidelidade. Promessas.
Mas existe uma integridade muito mais silenciosa.
Aquela necessária para continuar sendo quem somos quando descobrimos que ser quem somos pode nos custar aprovação.
Talvez uma das formas mais difíceis de integridade seja permanecer ao lado de si mesmo.
Há pessoas extraordinariamente leais aos outros e profundamente desleais consigo mesmas.
Cumprem promessas feitas a todos.
Menos aquelas que fizeram silenciosamente para si.
Talvez porque, em algum momento da vida, tenham aprendido que ser aceito era mais importante do que ser autêntico.
E aqui volto àquela paciente.
Ela queria ser comum.
Talvez porque ser comum lhe parecesse seguro.
Se ninguém percebesse diferença alguma, talvez ninguém tivesse razão para julgá-la.
Eu compreendo isso.
Todos nós, em algum grau, desejamos encontrar um lugar onde possamos simplesmente pertencer.
Mas talvez amadurecer seja descobrir algo ainda mais importante:
não precisamos ser iguais para pertencer.
Podemos pertencer sem desaparecer. Podemos amar sem nos perder. Podemos servir sem nos abandonar. Podemos fazer parte de um “nós” sem abrir mão do “eu”.
Talvez a verdadeira virtude não esteja em viver exclusivamente para si.
Mas também não pode estar em viver exclusivamente para os outros.
Talvez esteja na capacidade de construir uma existência em que nossa presença na vida das outras pessoas não exija nossa ausência da própria vida.
Porque chega um momento em que servir pode deixar de ser amor.
Adaptar-se pode deixar de ser maturidade.
Ceder pode deixar de ser generosidade.
E pertencer pode começar a custar caro demais.
Talvez amadurecer seja justamente perceber quando esse preço se tornou alto demais.
Quando a necessidade de pertencimento começa a exigir silêncio. Quando a aprovação começa a exigir renúncia. Quando o desejo de agradar começa a exigir ausência de si.
E talvez seja nesse ponto que finalmente compreendemos algo essencial:
cuidar dos outros é uma virtude.
Mas permanecer inteiro enquanto fazemos isso talvez seja uma virtude ainda maior.

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