Sobre o alívio de não precisar participar de todas as batalhas.
Há alguns dias, enquanto refletia sobre a maneira como lido com certas situações, uma palavra surgiu na minha consciência: alívio.
Ela apareceu quando me perguntei o que sinto ao decidir não entrar em discussões que considero desnecessárias. Não foi uma resposta elaborada. Simplesmente veio.
Há alguns anos percebo uma mudança na forma como me relaciono com o mundo. Assuntos que antes despertavam em mim a vontade de argumentar, explicar ou defender uma posição já não produzem o mesmo impulso.
Religião, política, verdades absolutas. Continuo tendo opiniões sobre esses temas, mas perdi boa parte do interesse em disputas que parecem servir apenas para confirmar aquilo em que cada um já acredita. Sobretudo quando percebo que meu interlocutor não quer compreender, e sim reafirmar suas certezas.
Nessas horas, geralmente deixo passar. Não sinto necessidade de vencer a discussão, nem considero que meu silêncio signifique concordância.
Apenas sigo.
Quando a vida continua
Recentemente, um acontecimento político me permitiu observar isso com mais clareza. O resultado de uma eleição contrariou minhas expectativas e os interesses de pessoas com quem trabalho. Respondi às questões profissionais que me foram apresentadas, reconheci a escolha da maioria e encerrei o assunto.
Não senti raiva nem decepção. Considerei as possíveis consequências econômicas, inclusive as que podem me atingir, mas não precisei prolongar o acontecimento dentro de mim.
A vida continuava.
Ao refletir sobre essa atitude, entendi que o alívio não vinha da fuga de um conflito. Vinha da sensação de não desperdiçar meu tempo com algo que pouco acrescentaria à minha existência.
Foi então que uma pergunta ganhou peso:
O que essa experiência acrescentará à minha existência?
Desde então, venho percebendo o quanto ela pode orientar minhas escolhas. Não só diante de discussões, mas também dos desejos que surgem, das preocupações que alimento, das atividades a que dedico minhas horas e até dos pensamentos que deixo permanecer na minha mente.
Perguntas simples
Tenho me interessado cada vez mais por perguntas aparentemente simples. Por que sinto o que sinto? De onde veio essa ideia? Preciso mesmo daquilo que desejo? O que estou fazendo com o meu tempo?
Não procuro respostas definitivas. Quero apenas compreender melhor a experiência de estar vivo.
Talvez por isso o silêncio tenha se tornado tão significativo para mim. Não sigo rituais específicos. Às vezes apenas respiro, observo o ambiente e escuto os sons ao redor. Não espero que algo extraordinário aconteça, nem preciso transformar esses momentos em conquista.
Estar presente pode ser suficiente.
Isso não quer dizer que toda experiência precise ser útil. Uma conversa despretensiosa, uma paisagem ou alguns minutos de contemplação podem não produzir resultado algum e, ainda assim, fazer sentido. A questão não é quanto ganhamos com uma experiência, mas se ela merece o espaço que vai ocupar em nossa vida.
Discernimento, não omissão
Também não acredito que evitar conflitos seja sempre uma virtude. Há situações em que o silêncio é omissão, e outras em que enfrentar o desconforto é uma responsabilidade.
O discernimento está justamente em reconhecer a diferença.
O que venho descobrindo é que nem toda divergência exige resposta. Nem toda provocação merece nossa energia. E nem tudo sobre o que temos opinião precisa virar uma batalha.
Durante muito tempo, talvez eu tenha confundido a capacidade de defender minhas convicções com a necessidade de exibi-las. Hoje me interessa menos convencer alguém de que estou certo e mais saber se minhas escolhas são coerentes com a pessoa que estou me tornando.
Há uma tranquilidade particular nisso. Não porque o mundo tenha ficado menos contraditório, mas porque já não sinto a obrigação de responder a cada uma das suas contradições.
Amadurecer talvez seja também aprender a escolher onde colocar a própria vida.
Afinal, o tempo não é apenas aquilo que gastamos.
É aquilo de que a nossa existência é feita.
E talvez uma das formas mais silenciosas de liberdade seja reconhecer que nem tudo o que merece uma opinião merece o nosso tempo.

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