Sobre os breves momentos em que nos sentimos inteiros — e por que não precisamos retê-los.

Eu estava escrevendo quando aconteceu de novo.

Por alguns segundos, nenhum pensamento disputava minha atenção. Restava apenas a frase que eu escrevia, nítida, como se estivesse ao mesmo tempo no papel e projetada em minha consciência. E, junto com ela, a sensação de que nada me faltava.

Há algum tempo venho percebendo esses instantes. São breves, inesperados e difíceis de explicar. No começo, reconhecia-os apenas como momentos de satisfação. Hoje, encontro uma palavra que parece se aproximar melhor daquilo que sinto: plenitude.

Não se trata da alegria por uma conquista, do reconhecimento recebido ou da satisfação de ter realizado alguma coisa. É diferente. Por alguns instantes, sinto-me inteiro, como se nada precisasse ser acrescentado à minha existência.

O corpo parece mais leve. A mente silencia. As preocupações deixam de ocupar espaço. Não sinto necessidade de demonstrar força, capacidade ou conhecimento. Simplesmente estou ali, consciente da minha presença.

E isso basta.

Esses momentos não exigem acontecimentos extraordinários. Surgem enquanto escrevo, caminho ou observo alguma coisa, sem que eu os procure. E duram pouco.

Aqui encontro um aparente paradoxo: como é possível experimentar a sensação de totalidade em algo tão breve?

Talvez estejamos habituados a confundir plenitude com permanência. Queremos que a felicidade dure, que a tranquilidade permaneça, que as boas experiências se prolonguem — como se o valor daquilo que vivemos dependesse de sua duração.

Mas começo a perceber que não é necessariamente assim.

Um instante pode ser completo sem precisar durar mais do que dura.

A diferença entre estar satisfeito e sentir-se inteiro

Durante boa parte da vida, aprendemos a relacionar satisfação com realização. Estudamos para conquistar uma profissão, trabalhamos para adquirir bens, construímos relacionamentos e estabelecemos objetivos. São movimentos naturais da existência, e nada há de errado neles.

Mas existe uma diferença entre estar satisfeito com aquilo que alcançamos e sentir que, naquele instante, nada nos falta.

A satisfação costuma acompanhar uma conquista. A plenitude que tento descrever não depende dela. É como se, por alguns segundos, desaparecesse a necessidade permanente de buscar alguma coisa.

Não significa que eu tenha perdido meus desejos, abandonado projetos ou deixado de valorizar o que construí. Continuo vivendo, trabalhando, amando e fazendo escolhas. Apenas não sinto, nesses breves momentos, necessidade de completar minha existência com algo exterior.

É uma sensação peculiar: possuir tudo e, ao mesmo tempo, estar desapegado de tudo o que possuo.

No início de O mal-estar na civilização, Freud comenta uma correspondência com o escritor Romain Rolland, que lhe descrevera o chamado sentimento oceânico: uma sensação subjetiva de ausência de limites, de ligação com a totalidade da existência.

Freud reconhece não experimentar esse sentimento e procura compreendê-lo a partir do desenvolvimento do eu e de suas fronteiras com o mundo.

Não pretendo resolver essa discussão, tampouco afirmar que minha experiência corresponda àquela descrita por Rolland. O que sinto parece mais simples: não experimento uma dissolução no universo, apenas a sensação de estar inteiro.

Mas há algo na postura de Freud que me interessa: ele reconhece não experimentar determinado sentimento sem, por isso, negar que outros possam vivenciá-lo.

Talvez compreender a experiência humana também exija reconhecer os limites daquilo que conhecemos sobre nós mesmos.

O silêncio que não precisa ser preenchido

Volto àquele momento da escrita.

Por alguns instantes, não houve necessidade de analisar o que acontecia. Apenas vivi a experiência.

Depois, tudo continuou normalmente. E esse detalhe me parece especialmente significativo.

Não senti tristeza quando o estado terminou. Não desejei recuperá-lo, tampouco prolongá-lo. Continuei minhas atividades, talvez com mais concentração do que antes.

Senti satisfação por ter vivido aquilo e, principalmente, por ter percebido que estava vivendo.

Desconfio que exista aí uma distinção importante: uma coisa é experimentar algo; outra é reconhecer conscientemente a experiência enquanto ela acontece.

Quantos momentos de serenidade atravessam nossa existência sem que lhes prestemos atenção?

Estamos tão ocupados interpretando o passado ou antecipando o futuro que, muitas vezes, deixamos de perceber aquilo que acontece diante de nós.

Talvez não nos faltem momentos de presença. Talvez nos falte percebê-los.

Fazer as pazes com o dia que termina

Há algum tempo cultivo um hábito antes de dormir. Gosto de chamá-lo de higiene mental, uma espécie de acerto de contas com o dia.

Recordo o que vivi de bom, as coisas belas que observei e os encontros que merecem permanecer na memória.

Também revisito meus erros, mas procuro não transformá-los em motivos de condenação pessoal.

Se errei, tento compreender. Se magoei alguém, reconheço. Se poderia ter agido melhor, procuro aprender.

Não desejo levar para o travesseiro o peso de acontecimentos que já não posso modificar.

Não sei se essa prática contribui diretamente para os episódios de plenitude, e não pretendo estabelecer uma relação de causa e efeito. Mas tenho observado que, quanto menos preciso lutar contra aquilo que já aconteceu, mais disponível me sinto para viver o presente.

Há uma liberdade discreta em aceitar que o dia terminou.

Talvez seja nesse espaço interior, menos ocupado por cobranças e preocupações, que alguns instantes de presença encontrem lugar.

A inteireza de um fragmento

Durante muito tempo, associei integridade à necessidade de viver em coerência com aquilo que reconheço como verdadeiro em mim.

Ainda considero essa compreensão essencial. Entretanto, essas experiências recentes me fizeram perceber outra dimensão da ideia de inteireza.

Há uma diferença entre procurar tornar-se inteiro e, por um instante, sentir-se inteiro.

A primeira envolve escolhas, amadurecimento, reconhecimento das próprias contradições e disposição para conhecer a si mesmo.

A segunda parece dispensar qualquer esforço.

Não porque tenhamos resolvido todos os nossos conflitos, mas porque, naquele breve intervalo, deixamos de experimentar a existência como algo que precisa ser completado.

Não considero esses episódios sinais de alguma condição especial ou superioridade espiritual. São experiências subjetivas que ainda procuro compreender.

E talvez seja justamente por isso que me interessam tanto.

Passei muitos anos buscando explicações sobre a existência, investigando ideias, pensamentos e comportamentos. Continuo fazendo isso. Mas começo a reconhecer que a consciência de si talvez envolva também algo aparentemente mais simples: aprender a permanecer conosco sem a necessidade constante de explicar, corrigir ou modificar alguma coisa.

Existe um tempo para investigar a vida. E talvez exista outro para simplesmente vivê-la.

Não são caminhos opostos.

Talvez você também já tenha experimentado algo semelhante — num fim de tarde, durante uma conversa, numa caminhada ou em algum instante de silêncio — e tenha deixado passar sem lhe dar nome.

Não sei se algum dia compreenderei inteiramente esses fragmentos de plenitude.

E isso já não me incomoda.

Eles chegam, são percebidos e passam. A vida continua, com suas responsabilidades, incertezas e possibilidades.

Não preciso retê-los.

Essa é, para mim, a descoberta mais significativa: experimentar algo profundamente agradável sem transformá-lo em mais uma necessidade.

Afinal, talvez a plenitude não esteja em conseguir que um instante dure para sempre, mas em não precisar que ele dure mais do que dura.

Elizeu Nieser

Inside — Ir para Dentro

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Sou Elizeu

O que posso dizer sobre mim? Sou aquariano, nascido no Sul e criado na Amazônia Ocidental — com os olhos voltados para o céu e o coração profundamente enraizado na terra.

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