Sobre as expectativas que criamos, o sofrimento que acrescentamos e a liberdade de acolher a vida como ela acontece.
Nesta manhã, recebi uma mensagem de alguém com quem não conversava havia algum tempo. Uma frase simples, dessas que todos nós já dissemos em algum momento: “Eita semana terrível essa, só problemas…”
Enquanto pensava no que responder, ocorreu-me uma pergunta: quanto das nossas dificuldades está naquilo que acontece, e quanto está na maneira como esperávamos que as coisas acontecessem?
Dizemos que tivemos um dia difícil. Que as pessoas nos decepcionaram, que as circunstâncias não ajudaram, que nada saiu como deveria.
Mas raramente nos perguntamos: deveria, segundo quem?
A pergunta incomoda, e com razão. Nossas dificuldades são reais. Há acontecimentos que nos entristecem, comportamentos que nos ferem e situações que escapam inteiramente ao nosso controle.
Há, porém, algo que nem sempre percebemos: além daquilo que acontece, carregamos uma ideia de como as coisas deveriam acontecer.
Esperamos que as pessoas correspondam ao que imaginamos delas. Que nossos esforços sejam reconhecidos. Que nossos planos se realizem no tempo desejado. Que o mundo, de algum modo, respeite a lógica que construímos para ele.
Quando isso não acontece, sofremos. Não apenas pelo fato em si, mas pela distância entre a realidade e a expectativa.
O sofrimento que acrescentamos
Imagine alguém que espera uma mensagem que não chega. O fato é simples: a mensagem não veio. Mas a mente logo começa a interpretar. Talvez a pessoa não se importe. Talvez tenha perdido o interesse. Talvez algo esteja errado.
Em poucos instantes, um acontecimento vira uma história. E essa história, mesmo sem confirmação, passa a produzir sentimentos reais.
Isso não quer dizer que toda preocupação seja infundada. Quer dizer apenas que nem tudo o que pensamos sobre um acontecimento corresponde ao que de fato aconteceu.
A distinção importa. Porque, muitas vezes, não estamos vivendo apenas uma dificuldade. Estamos vivendo também as interpretações que construímos sobre ela.
Entre aceitar e desistir
Aceitar a realidade não significa concordar com tudo, tolerar injustiças ou abrir mão daquilo que desejamos transformar.
Aceitar é reconhecer o que existe antes de decidir o que fazer.
Há uma diferença entre dizer “isso não deveria estar acontecendo” e perguntar “diante do que está acontecendo, qual é a melhor escolha que posso fazer?”.
Na primeira atitude, ficamos presos à realidade que gostaríamos de encontrar. Na segunda, passamos a agir sobre a realidade que efetivamente encontramos.
É nesse pequeno deslocamento que pode nascer alguma liberdade.
Desejar sem exigir
Amadurecer não é deixar de criar expectativas. Seria impossível viver sem imaginar possibilidades, desejar encontros ou construir projetos.
Talvez amadurecer seja aprender a não transformar expectativas em exigências dirigidas à vida.
Continuar desejando, sem presumir que o desejo será atendido. Continuar confiando, reconhecendo que as pessoas têm suas próprias escolhas. Continuar planejando, sabendo que o inesperado também faz parte da existência.
E, sobretudo, compreender que uma experiência não precisa corresponder ao que imaginamos para ainda ter significado.
Voltei, então, à mensagem daquela manhã. Não sabia exatamente o que havia tornado aquela semana tão difícil. Talvez nem precisasse saber para reconhecer ali um sofrimento que pedia acolhimento, e não uma explicação apressada.
Mas fiquei pensando que, ao final de um dia difícil, poderíamos fazer a nós mesmos uma pergunta simples:
O que realmente aconteceu comigo hoje, e quanto do meu sofrimento nasceu daquilo que eu esperava que fosse diferente?
Nem sempre a resposta aliviará a dor. Mas pode nos ajudar a reconhecer o que precisamos enfrentar, o que podemos transformar e aquilo que já não precisamos acrescentar ao nosso sofrimento.
Elizeu Nieser

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