Sobre a liberdade de não precisar falar, convencer ou participar de todos os ruídos do mundo.
Em um texto recente, O que merece o meu tempo?, escrevi sobre o alívio de não precisar participar de todas as batalhas. Desde então, venho percebendo que nem tudo o que ouvimos merece resposta. Nem toda opinião exige uma posição. E nem toda verdade que acreditamos conhecer precisa ser anunciada.
Parece simples. Mas vivemos num tempo em que falar se tornou quase uma obrigação. Opina-se sobre tudo, muitas vezes antes de compreender. Compartilham-se certezas que mal foram examinadas. E, em meio a tantas vozes, ouvir se tornou uma experiência cada vez mais rara.
Durante muito tempo, também acreditei que o silêncio diante de uma afirmação equivocada pudesse significar concordância ou omissão. Hoje já não penso necessariamente assim.
Às vezes, permanecer em silêncio é apenas reconhecer que aquela discussão não acrescentará nada à nossa existência.
O que nossas palavras revelam sobre nós
Em sua conhecida palestra TED sobre como falar para que as pessoas queiram ouvir, o especialista em som e comunicação Julian Treasure apresenta quatro princípios reunidos no acrônimo HAIL: honestidade, autenticidade, integridade e amor.
A proposta é simples: falar com verdade, ser quem somos, agir de maneira coerente com aquilo que dizemos e desejar genuinamente o bem do outro.
São princípios que continuam fazendo sentido para mim. Hoje, porém, eu acrescentaria uma pergunta anterior a todos eles: precisamos realmente falar?
Podemos estar certos sobre um assunto e, ainda assim, não encontrar razão para discuti-lo. Podemos compreender uma situação sem sentir necessidade de explicá-la. Podemos discordar profundamente de alguém sem transformar essa diferença num enfrentamento.
A maturidade também se manifesta nessa capacidade de reconhecer quando nossa palavra é necessária e quando ela apenas alimentaria um ruído que já existe.
O silêncio como expressão de liberdade
Há uma diferença importante entre calar por medo e permanecer em silêncio por discernimento.
No primeiro caso, renunciamos à própria voz porque tememos as consequências de usá-la. No segundo, escolhemos conscientemente onde colocar nossa atenção, nosso tempo e nossa energia.
Essa distinção me parece fundamental.
Não se trata de aceitar a mentira, tolerar injustiças ou abandonar aquilo em que acreditamos. Há circunstâncias em que falar é uma responsabilidade.
Mas há também inúmeras situações em que nossa necessidade de responder revela mais sobre nosso desejo de reconhecimento do que sobre a importância daquilo que pretendemos defender.
É justamente aí que o silêncio tem algo a nos ensinar.
Quando deixamos de sentir necessidade de corrigir todas as opiniões, começamos a perceber o quanto da nossa tranquilidade dependia do comportamento dos outros.
Não precisamos vencer uma discussão para continuar íntegros. Nem precisamos convencer alguém para preservar aquilo que somos.
A palavra que nasce da consciência
A desinformação, as falsidades e os discursos vazios continuarão existindo. Não controlamos tudo o que circula pelo mundo, mas podemos escolher o que acolhemos, o que reproduzimos e o que acrescentamos a isso.
Essa escolha começa antes da palavra. Começa na maneira como escutamos, interpretamos e examinamos nossas próprias certezas.
Afinal, não basta desconfiar das convicções alheias. É preciso reconhecer que também podemos estar enganados.
Talvez a comunicação mais honesta não seja a que transmite mais segurança, mas a que admite os próprios limites.
Hoje me interessa menos ter uma resposta para cada questão e mais compreender o que me leva a querer responder.
É uma mudança discreta, mas que altera profundamente nossa relação com o mundo.
Porque, quando já não precisamos fazer de cada divergência uma batalha, descobrimos que o silêncio não é necessariamente ausência de palavras.
Às vezes, é apenas a presença de alguém que já não precisa provar o que pensa para continuar sendo quem é.
E talvez essa seja uma das formas mais serenas de liberdade.
Elizeu Nieser — Inside

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