Talvez viver bem não seja alcançar um ideal, mas reconhecer-se na maneira como escolhemos viver.

Recentemente, durante uma viagem a quase três mil quilômetros de casa, comecei a observar pessoas desconhecidas com uma curiosidade diferente.

Nos aeroportos, nas ruas e nos lugares por onde passei, olhava para aqueles rostos e imaginava as histórias que carregavam. Quantas dores, perdas, arrependimentos e esperanças existiriam por trás de cada um deles?

Inicialmente, pensei que boa parte do sofrimento humano fosse consequência das nossas escolhas. Mas logo percebi que essa explicação era insuficiente.

A existência acontece num ambiente de extraordinária imprevisibilidade. Podemos agir corretamente e, ainda assim, sofrer profundamente. Um segundo de distração no trânsito pode encerrar uma vida. Uma palavra pronunciada sem cuidado pode provocar um conflito. Uma omissão aparentemente insignificante pode causar sofrimento a alguém.

A vida não oferece garantias.

Talvez seja justamente por isso que nossas escolhas mereçam tanta atenção.

Há bastante tempo cultivo um hábito antes de adormecer. Faço uma espécie de higiene mental: procuro recordar aquilo que senti de bom, o que encontrei de belo e as experiências que considero dignas de permanecer comigo.

Durante essa viagem, porém, o exercício ganhou outro significado.

Passei a observar minhas pequenas atitudes ao longo do dia. A maneira como tratava as pessoas, as palavras que escolhia, minhas reações diante dos imprevistos e até aquilo que deixava de fazer.

À noite, revisava mentalmente essas experiências. Não para me condenar pelos erros ou me congratular pelos acertos, mas para compreender minhas escolhas e reconhecer aquelas que gostaria de repetir.

Foi então que percebi algo curioso.

A satisfação de ter agido corretamente não era tão significativa quanto a sensação de estar me aproximando daquilo que reconheço, intimamente, como verdadeiro em mim.

Não se tratava de alcançar um ideal de bondade. Tampouco de me transformar num homem melhor segundo alguma referência moral.

Era uma experiência de reconhecimento.

Como se, em determinados momentos, minhas atitudes expressassem com mais fidelidade aquilo que sinto ser.

E essa sensação me proporcionava uma satisfação silenciosa. Não porque eu tivesse conquistado alguma coisa, mas simplesmente porque a experimentava.

Foi durante essas reflexões que uma expressão começou a fazer sentido para mim: qualidade humana.

Estamos acostumados a falar em qualidade de vida, geralmente associada à saúde, ao conforto, à segurança e às condições materiais da existência.

Mas e a qualidade humana da vida que levamos?

Podemos desfrutar de conforto, realizar projetos e acumular conquistas, permanecendo indiferentes ao sofrimento alheio. Também podemos enfrentar grandes dificuldades e, ainda assim, conservar a capacidade de agir com respeito, sensibilidade e dignidade.

Talvez viver bem não dependa apenas das condições que conseguimos reunir, mas também da maneira como participamos da existência dos outros.

Afinal, não vivemos isoladamente.

Nossas palavras, escolhas e omissões interferem, mesmo discretamente, na experiência de quem cruza nosso caminho.

E muitas dessas escolhas acontecem sem testemunhas, reconhecimento ou recompensa.

Talvez seja justamente aí que a integridade revele seu significado mais profundo.

Não quando fazemos o bem para sermos reconhecidos, mas quando determinada atitude simplesmente corresponde àquilo que nossa consciência reconhece como verdadeiro.

Isso não significa que sejamos incapazes de errar. Pelo contrário. Reconhecer nossas contradições talvez seja uma das expressões mais importantes da honestidade consigo mesmo.

Afinal, sentir-se autêntico não torna automaticamente uma escolha justa. É preciso considerar também o que nossas ações produzem na vida dos outros.

Essa experiência não nasceu de um ensinamento religioso nem da tentativa de encontrar uma nova regra moral. Começou com a observação de pessoas desconhecidas e terminou voltando minha atenção para o único ser humano sobre o qual posso exercer alguma influência mais direta: eu mesmo.

Talvez tenha sido essa a descoberta mais significativa da viagem.

Não preciso compreender inteiramente o propósito da existência para reconhecer o valor de vivê-la com dignidade.

Talvez o sentido não seja algo que precisamos encontrar antes de viver, mas algo que também construímos na maneira como vivemos.

Na atenção que oferecemos, nas dores que evitamos causar, na beleza que conseguimos perceber e na honestidade com que reconhecemos nossas próprias limitações.

Agora, enquanto aguardo o voo de volta para casa, percebo que continuo sem respostas definitivas sobre a existência humana.

Mas algumas perguntas começaram a fazer mais sentido.

E talvez seja suficiente, por enquanto.

Porque a vida continuará imprevisível, independentemente daquilo que aprendermos sobre ela.

Mas, enquanto estivermos aqui, podemos escolher a qualidade humana da nossa participação nesse mundo.

Não para nos tornarmos perfeitos. Nem para correspondermos a algum ideal.

Mas para que, ao final de cada dia, possamos reconhecer um pouco mais de nós mesmos na maneira como escolhemos viver.

Elizeu Nieser
Inside — Um olhar para dentro.

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Sou Elizeu

O que posso dizer sobre mim? Sou aquariano, nascido no Sul e criado na Amazônia Ocidental — com os olhos voltados para o céu e o coração profundamente enraizado na terra.

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