Não me canso daquela sensação agradável que surge quando releio um texto e percebo que alguma coisa ali encontrou seu lugar.
Não porque tudo pareça perfeito. Mas porque o pensamento flui.
Uma frase conduz à outra, o parágrafo respira e, durante alguns instantes, nada parece disputar nossa presença.
Parece simples.
Não é.
Vivemos cercados por estímulos visuais, notificações e pensamentos que entram na mente sem pedir licença. Permanecer inteiro diante de uma única coisa tornou-se uma experiência cada vez mais rara.
Nesta manhã, aconteceu comigo.
Eram 5h42 quando abri no Word o arquivo “Além da Ideologia — v4”.
Aumentei o zoom para 170% e comecei pelo prólogo.
Li devagar.
Sem pressa para terminar. Sem qualquer pensamento fora dali.
Apenas acompanhando cada frase, cada parágrafo, cada ideia.
Havia uma fluidez que me agradava profundamente. Em determinado momento, respirei fundo e percebi que estava ainda mais dentro do texto.
Nada me parecia artificialmente intelectual.
As ideias estavam expostas com simplicidade. As palavras pareciam estar onde deveriam estar.
E o texto me fazia querer continuar.
Cerca de quinze minutos depois, terminei o primeiro capítulo.
Foi então que um pensamento interrompeu aquela concentração:
— Nossa… são 427 páginas. Será que o leitor não vai abandonar o livro por causa disso?
Parei.
Voltei ao início e fiz algo mais objetivo.
Selecionei o capítulo.
2.334 palavras.
Lembrei dos discursos que escrevo e do cálculo que costumo fazer para estimar o tempo de leitura.
Uma pessoa lendo tranquilamente, em torno de 140 palavras por minuto, levaria pouco mais de dezesseis minutos para atravessar aquele capítulo.
Dezesseis minutos.
Pensei:
— Não é muito.
Basta deixar o celular de lado por alguns minutos.
Foi aí que percebi a ironia.
Eu havia acordado às cinco da manhã e vindo para o escritório.
Quando cheguei, peguei o celular.
A tela do Instagram ainda estava aberta.
Rolei algumas imagens.
Política.
Comentários.
Um vídeo.
Outra publicação.
Mais um comentário.
Mais uma imagem.
Quando me dei conta, mais de quarenta minutos haviam desaparecido.
Quarenta minutos.
Tempo suficiente para ler mais de dois capítulos como aquele.
E eu sequer havia percebido o tempo passar.
Senti uma pequena tristeza.
Deixei o celular sobre a mesa e respirei fundo.
Foi então que compreendi que talvez minha preocupação estivesse no lugar errado.
Eu havia aberto o manuscrito justamente para decidir o que poderia cortar.
Afinal, 427 páginas pareciam muitas.
Mas, conforme retomava a leitura, não encontrava algo que desejasse retirar apenas para diminuir o número final.
O pensamento parecia ter encontrado sua forma.
Então percebi uma distinção importante.
Não quero conservar 427 páginas porque fui eu quem as escreveu.
Quero conservá-las se forem necessárias para aquilo que desejo dizer.
Se houver repetição, corto. Se uma frase estiver ali apenas porque soa bonita, corto. Se um parágrafo não fizer o pensamento avançar, corto.
Mas não quero retirar uma ideia necessária apenas porque o número 427 provoca algum desconforto.
Falarei com o editor. Direi:
— É isso que quero dizer.
É isso que desejo entregar a quem estiver disposto, por alguns minutos, a diminuir o ruído de fora e olhar para dentro de si.
Talvez exista uma ironia em nosso tempo. Achamos muito dedicar quinze minutos a um capítulo. Mas entregamos quarenta minutos a uma tela sem sequer perceber.
Talvez o problema não seja exatamente falta de tempo. Talvez seja onde nossa atenção está enquanto o tempo passa.
No final de Além da Ideologia, na página 426, há quatro linhas que encerram toda a travessia:
Antes do voto, existe uma crença.
Antes da crença, existe uma história.
Antes de qualquer lado, existe uma pessoa.
E, dentro dela, ainda pode existir uma consciência capaz de voltar a pensar.
Nesta manhã, essas palavras ganharam para mim outro significado.
Porque voltar a pensar talvez comece muito antes de qualquer grande reflexão.
Pode começar num gesto quase insignificante:
colocar o celular sobre a mesa,
respirar,
e perceber onde está a nossa atenção.
Porque talvez não estejamos sem tempo.
Talvez estejamos apenas entregando nossa atenção antes de decidir onde gostaríamos de colocá-la.

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