Nesta manhã, eu estava na varanda do nosso quarto, em uma pousada cercada por um bosque do cerrado.
A cena era quase bucólica. Tudo parecia combinar: a quietude, a paisagem e o clima.
Não havia nada de glamouroso, mas tudo revelava bom gosto. O espaço era pequeno, com paredes de pedra, aberturas de madeira rústica e um teto transparente quase inteiramente coberto pelas folhas das árvores.
O silêncio só era interrompido pelo canto dos pássaros.
A porta do quarto também era de madeira, com grandes chapas de metal que lembravam a entrada de algum antigo castelo medieval. Eu estava sentado em uma cadeira de madeira, sob a sombra fresca da manhã, com o notebook apoiado no braço da cadeira.
No computador tocava Morning Coffee & Smooth Jazz.
Esse jazz instrumental já se tornou uma espécie de ritual nas minhas manhãs de escrita.
Deise olhou para mim e, com um sorriso quase infantil, perguntou:
— Ei, posso aproveitar esse seu som para voltar a ler meu livro?
Sem levantar a cabeça, enquanto abria o editor de texto, respondi:
— Sim, minha linda senhora. Fique à vontade.
Ela se acomodou ao meu lado com o livro nas mãos. Eu tentava encontrar as primeiras palavras da manhã enquanto o jazz se misturava ao canto distante dos pássaros.
Depois de algum tempo, Deise perguntou:
— Seu celular está aí?
— Não. Está lá dentro — respondi, indicando a porta.
Ela olhou para o bosque e disse:
— Então acho que vamos ter que apenas apreciar a vista.
Segui a direção do seu olhar.
Bem perto de nós, sobre o galho de uma árvore, havia um pássaro de cores intensas. Seu peito era quase vermelho, enquanto o restante do corpo parecia de um cinza escuro.
À primeira vista, ele nem parecia um pássaro. Era como se uma flor, talvez uma orquídea, tivesse brotado sobre o galho.
Permanecia imóvel.
De vez em quando, virava lentamente o bico para um lado e para o outro. Depois tornava a ficar parado, como se também não tivesse nenhuma pressa de deixar aquela manhã.
Deise baixou o livro sobre o peito e cruzou as mãos sobre ele. Seu olhar permaneceu fixo no pássaro.
Por alguns minutos, nenhum de nós disse nada.
Então ela sorriu e comentou:
— Olha, até os pássaros daqui estão curtindo sua musiquinha!
Olhei para ela, esbocei um sorriso e respondi apenas:
— Né?
Voltamos ao silêncio.
Já faz algum tempo que ouço jazz pelas manhãs. Talvez essa preferência tenha chegado junto com a pessoa que venho me tornando: menos apressada, mais silenciosa e mais atenta ao instante.
Tenho procurado não permitir que meus pensamentos me carreguem para muito longe de onde estou.
Nem sempre consigo.
Mas aprendi que há uma diferença entre pensar sobre a vida e realmente estar presente nela.
Durante muito tempo, confundimos viver com fazer.
Precisamos ler, escrever, trabalhar, resolver, produzir e construir. Mesmo nos momentos de descanso, sentimos a necessidade de ocupar as mãos e a mente com alguma coisa que pareça útil.
Foi então que, depois de vários minutos observando o bosque, Deise disse:
— Às vezes, a gente se concentra tanto em fazer alguma coisa prática, como ler um livro ou escrever, como você está fazendo agora, que deixa de perceber o que está ao redor.
A frase dela permaneceu em mim.
Enquanto eu procurava alguma coisa para escrever, a vida acontecia diante dos meus olhos.
Estava no jazz tocando suavemente.
Na luz atravessando as folhas.
No livro repousado sobre o peito de Deise.
No pássaro imóvel sobre o galho.
E no silêncio que não precisava ser preenchido.
Talvez a experiência de viver verdadeiramente um instante seja mais importante do que muitas das coisas que conseguimos construir ao longo do dia.
Não porque realizar seja menos importante.
Escrever importa.
Ler importa.
Trabalhar, criar e sonhar também.
Mas existem momentos em que precisamos deixar o livro repousar, afastar os olhos da tela e apenas olhar para aquilo que está diante de nós.
Porque nem tudo o que importa precisa produzir alguma coisa.
Alguns instantes existem apenas para serem vividos.
Talvez a plenitude não seja um lugar ao qual chegamos.
Talvez seja apenas o momento em que deixamos de procurar outra coisa.
Naquela manhã, o jazz tocava suavemente, Deise observava o bosque e um pássaro permanecia imóvel diante de nós.
Nada parecia estar faltando.


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