Ontem foi Dia dos Pais.

Vieram os abraços, os presentes, as brincadeiras e, principalmente, as mensagens.

O kit completo.

Mas confesso que nunca são os presentes que mais me tocam. São as palavras.

Talvez porque os filhos às vezes enxerguem em nós coisas que nós mesmos não percebemos. Uma mensagem destaca uma qualidade que eu nem imaginava que fosse notada. Outra recorda alguma atitude aparentemente pequena, dessas que fazemos sem pensar e esquecemos minutos depois, mas que, por alguma razão, permaneceu guardada na memória de quem recebeu.

E isso sempre me faz pensar.

Neste Dia dos Pais, senti-me especialmente feliz. Não apenas pelas homenagens, mas por olhar para meus filhos e perceber que estão seguindo suas próprias vidas.

Cada um construindo sua história, fazendo escolhas, errando, acertando, recalculando caminhos e se tornando, pouco a pouco, aquilo que escolheu ser.

Talvez seja essa uma das maiores alegrias de um pai: perceber que os filhos já não precisam caminhar pelos caminhos que ele escolheria.

Encontraram os próprios.

Nunca fui um pai muito convencional nesse aspecto. Não tenho grande talento para aquele tipo de conselho:

“Faça isso.”

“Não faça aquilo.”

Sempre preferi provocar uma reflexão, apresentar uma ideia, fazer uma pergunta e deixar que cada um encontre, por si mesmo, aquilo que pode servir para sua vida.

Talvez porque eu acredite profundamente na individualidade.

Sempre procurei ensinar aos meus filhos que a liberdade é uma das coisas mais preciosas que alguém pode conquistar.

Mas liberdade nunca anda sozinha.

Viktor Frankl defendia que, em contraponto à Estátua da Liberdade, os Estados Unidos deveriam ter também uma Estátua da Responsabilidade.

Sempre gostei dessa ideia.

Porque talvez uma das grandes confusões do nosso tempo seja imaginar que liberdade significa simplesmente fazer aquilo que queremos.

Não significa.

Liberdade sem responsabilidade facilmente se transforma em egoísmo.

Ser livre é poder escolher.

Ser responsável é compreender que nossas escolhas alcançam outras pessoas.

É essa dualidade que sempre tentei transmitir.

Minhas filhas brincam no grupo da família me chamando de “pai de muitos”.

Talvez porque eu seja pai de sete. Talvez porque, pela profissão e pelas conversas da vida, eu acabe exercendo um pouco esse papel também com outras pessoas.

Gostei da expressão.

Pai de muitos.

Porque ela me permite imaginar que alguns conselhos que daria aos meus filhos talvez possam servir também aos filhos de alguém.

Nesta manhã, deparei-me com uma dessas listas que circulam pela internet.

Era uma coleção de pequenas regras de convivência.

Devolva aquilo que pegou emprestado antes que precisem cobrar.

Não faça perguntas sobre casamento, filhos, salário ou escolhas pessoais que não dizem respeito a você.

Não interrompa alguém enquanto fala.

Se fizer uma brincadeira e perceber que a pessoa não gostou, pare.

Guarde o celular quando alguém estiver falando com você.

Trate quem limpa o chão com o mesmo respeito com que trataria o presidente da empresa.

Agradeça.

Coisas simples.

Quase banais.

Mas talvez esteja justamente aí alguma coisa importante.

Passamos muito tempo procurando grandes princípios para orientar nossas vidas e esquecemos que o caráter costuma aparecer em situações muito pequenas.

Devolver uma caneta.

Escutar sem interromper.

Não constranger alguém com uma pergunta.

Respeitar um limite.

Dizer obrigado.

Cumprir uma palavra.

Tratar com dignidade alguém que não possui poder algum sobre você.

Nada disso exige grande inteligência.

Nem dinheiro.

Nem formação acadêmica.

Nem religião.

Exige apenas uma percepção aparentemente simples:

existe outra pessoa diante de mim.

Talvez a civilidade comece exatamente aí.

Na capacidade de reconhecer que o outro possui limites, história, dignidade e uma vida que não existe para satisfazer nossa curiosidade, nossas expectativas ou nossas necessidades.

Até aí, tudo parecia uma reflexão sobre boas maneiras.

Mas então encontrei uma segunda reflexão.

E ela deslocava completamente a pergunta.

Não mais:

Como tratamos as pessoas?

Mas:

Quem somos quando fechamos a porta de casa?

Essa pergunta é muito mais desconfortável.

Porque é relativamente fácil ser educado com desconhecidos.

Cumprimentamos o atendente. Agradecemos ao motorista. Sorrimos para alguém no elevador. Somos pacientes numa reunião. Controlamos o tom diante de um cliente.

Mas e dentro de casa?

Como respondemos ao companheiro?

Como falamos com nossos filhos?

Que voz usamos quando estamos cansados?

Que versão nossa aparece quando somos contrariados?

Um desconhecido não conhece nossa história.

Não sabe onde estão nossas feridas.

Não conhece nossas inseguranças nem aquilo que ainda não conseguimos resolver dentro de nós.

Quem vive conosco, mesmo sem intenção, acaba tocando nesses lugares.

E talvez por isso exista um teste ainda mais difícil do que a boa educação em público:

a gentileza na intimidade.

É curioso perceber que podemos passar um dia inteiro demonstrando paciência com pessoas que talvez nunca mais encontremos e, ao chegar em casa, responder com impaciência justamente a quem mais amamos.

Não necessariamente porque sejamos falsos.

Talvez porque, fora de casa, nos regulamos.

Em casa, baixamos as defesas.

Existe intimidade. Existe segurança. Existe aquela certeza silenciosa de que aquelas pessoas provavelmente estarão ali amanhã.

E é justamente aí que mora o perigo.

Podemos acabar oferecendo nossa melhor versão ao mundo e deixando os restos emocionais do dia para aqueles que amamos.

Esse talvez seja um dos paradoxos mais estranhos das relações humanas:

às vezes tratamos com enorme cuidado quem pouco participa da nossa história e somos descuidados justamente com aqueles cuja ausência nos devastaria.

Talvez porque esperemos mais deles.

Talvez porque nos sintamos seguros.

Talvez porque imaginemos que compreenderão.

Talvez porque acreditemos que haverá sempre um amanhã para reparar o que fizemos hoje.

E foi pensando nisso que aquela simples lista de boas maneiras deixou de parecer uma lista.

Ela começou a parecer uma reflexão sobre caráter.

Por isso, se eu pudesse deixar hoje alguns conselhos aos meus filhos — e talvez aos filhos de alguém —, seriam simples.

Sejam livres.

Mas não se esqueçam da responsabilidade.

Construam a própria vida, mas não façam da própria liberdade um peso sobre a vida de ninguém.

Respeitem os limites das pessoas.

Não confundam intimidade com autorização para invadir.

Não confundam sinceridade com grosseria.

Não confundam liberdade com indiferença.

Não precisem diminuir ninguém para se sentirem maiores.

Escutem mais.

Perguntem menos quando a resposta não lhes pertence.

Agradeçam.

Devolvam aquilo que não é de vocês.

Honrem a palavra dada.

Tratem bem quem não pode lhes oferecer nada em troca.

Mas, principalmente:

não reservem sua melhor versão apenas para o mundo.

Guardem gentileza também para casa.

Guardem paciência para quem convive com vocês.

Guardem palavras cuidadosas para quem conhece seus defeitos, suas fragilidades, seus dias ruins e, mesmo assim, continua ao seu lado.

Porque uma vida não é construída apenas pelas grandes decisões.

Ela é construída milhares de vezes nas pequenas escolhas.

No modo como você responde.

Na maneira como escuta.

Na palavra que poderia ferir e você escolhe não dizer.

Na promessa que cumpre mesmo quando ninguém cobraria.

No respeito oferecido a quem não possui poder algum sobre você.

Talvez caráter seja menos aquilo que mostramos ao mundo e mais a distância que existe entre essa pessoa e aquela que permanece quando não há ninguém para impressionar.

Quanto menor essa distância, maior nossa coerência.

O mundo conhecerá muitas versões de vocês.

A profissional.

A social.

A bem-sucedida.

A simpática.

A educada.

Mas poucas pessoas conhecerão vocês depois que a porta se fechar.

Essas conhecerão os bastidores.

E talvez sejam justamente elas que mais mereçam encontrar ali aquilo que vocês oferecem de melhor ao mundo.

Se eu conseguir deixar alguma coisa aos meus filhos, espero que seja isso.

Não quero que vivam como eu viveria.

Quero que vivam as próprias vidas.

Que sejam profundamente livres.

Mas que jamais se esqueçam:

toda liberdade digna desse nome caminha de mãos dadas com a responsabilidade de perceber que, do outro lado de nossas escolhas, quase sempre existe alguém.

Talvez seja esse o conselho deste pai de muitos.

E, pensando bem, talvez seja também o conselho que continuo tentando aprender.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Sou Elizeu

O que posso dizer sobre mim? Sou aquariano, nascido no Sul e criado na Amazônia Ocidental — com os olhos voltados para o céu e o coração profundamente enraizado na terra.

Let’s connect