Sempre que alguém me conta sobre o próprio sofrimento, minha primeira atitude é acolher.

Escuto. Respeito. Procuro compreender.

Mas, quando a conversa se prolonga, quase nunca deixo passar a oportunidade de compartilhar aquilo que a vida me ensinou: sofrer é uma das poucas grandes certezas da existência.

Entre o nascimento e a morte, em algum momento, a dor nos encontra.

Ninguém está completamente imune.

Podemos ter dinheiro, saúde, família, fé, conhecimento ou reconhecimento. Podemos construir muros, fazer planos e tentar controlar cada detalhe da vida. Ainda assim, haverá momentos em que alguma coisa escapará de nossas mãos.

Uma perda.

Uma doença.

Uma despedida.

Uma realidade que não escolhemos.

Talvez o sofrimento seja justamente o ponto em que a vida interrompe nossas certezas e nos obriga a olhar para aquilo que antes evitávamos.

Quando penso nisso, lembro-me da história de Sidarta Gautama.

Sidarta teria sido criado dentro de um palácio, cercado de conforto e protegido das fragilidades humanas. Seu pai desejava poupá-lo de tudo o que pudesse causar dor. Por isso, ele não deveria ver a doença, a velhice, a pobreza ou a morte.

Era como se fosse possível construir uma vida sem sofrimento.

Mas bastou que Sidarta deixasse os limites do palácio para perceber que o mundo era muito maior do que a realidade que haviam preparado para ele.

Ao ver um homem velho, um enfermo e um corpo sem vida, compreendeu que aquilo que julgava ser a vida era apenas uma versão protegida dela.

O palácio que o mantinha seguro também o mantinha adormecido.

Talvez essa seja uma das grandes lições de sua história: nem sempre aquilo que nos protege nos desperta.

Às vezes, é justamente o encontro com a fragilidade que nos faz enxergar a existência com mais profundidade.

Esta reflexão nasceu de uma experiência vivida nesta manhã.

Eu estava na recepção de um hospital, aguardando os exames pré-operatórios do pequeno Jr., meu lindo garotinho, o sétimo dos meus filhos.

Desde o nascimento dele, estivemos inúmeras vezes em hospitais, clínicas e consultórios. Jr. nasceu prematuro e é uma pessoa com T21. Por isso, ao longo de seus primeiros anos, investigamos possíveis alterações, acompanhamos seu desenvolvimento e realizamos todos os cuidados necessários.

Depois de tantas consultas, exames e salas de espera, esses ambientes quase se tornaram familiares para nós.

Deise e eu aprendemos a agradecer por cada possibilidade de enfermidade que é descartada.

Não agradecemos apenas pelas grandes vitórias.

Aprendemos a comemorar cada exame que vem bem, cada risco que deixa de existir e cada medo que não se confirma.

Hoje recebemos uma dessas notícias que parecem simples para quem está de fora, mas que têm um valor imenso para quem conhece toda a caminhada.

O coração do nosso pequeno está perfeito.

Os pequenos orifícios que existiam se fecharam.

Vamos comemorar em casa.

Ao viver momentos como esse, não costumo me entregar à ansiedade. Procuro apenas permanecer presente e aberto ao que vier.

Não porque eu seja indiferente.

Mas porque aprendi que sofrer antecipadamente não altera o resultado de um exame, não muda um diagnóstico e não impede a vida de seguir o próprio curso.

Diferentemente do príncipe Sidarta, a existência me apresentou muito cedo algumas de suas realidades fundamentais.

Nascimento.

Sofrimento.

Perda.

Morte.

Com o tempo, deixei de enxergar essas experiências como acidentes que interrompem a vida. Elas também fazem parte dela.

Enquanto aguardava, entrou na sala uma conhecida muito querida, alguém que faz parte da minha história há muitos anos.

Ela estava acompanhada de seu único filho, hoje um homem na casa dos 40 anos.

Ao me ver, abriu um sorriso e me abraçou com o carinho de uma mãe. Talvez por isso eu sempre a tenha considerado uma espécie de segunda mãe.

— Que bom ver você, Elizeu. Falávamos de você ontem mesmo.

Contou que comentava sobre minha família numerosa e sobre como sempre me viu alegre, disposto e pronto a oferecer alguma palavra edificante.

Depois do longo abraço, olhei para o homem que estava diante do balcão e brinquei:

— E o seu bebê está ali?

Em um instante, seu semblante mudou.

O sorriso desapareceu e deu lugar a um olhar triste.

— Tadinho dele. Está sofrendo muito.

Ela me contou que uma parente de sua nora havia falecido na semana anterior e que seu filho estava profundamente abalado.

Então me pediu que conversasse com ele.

Nesse momento, ele se aproximou para me cumprimentar. Eu o conheço desde quando tinha aproximadamente dez anos.

— Você está ótimo! O tempo não passa para você — disse ele.

Agradeci e perguntei por sua filha.

Com uma ponta de satisfação, respondeu:

— Acredita que ela já está com 17 anos e está namorando?

— Os filhos crescem rápido — respondi.

Falamos sobre a vida, família, trabalho e sobre o tempo.

Ele quis saber o que eu estava fazendo e como conseguia estar na casa dos 60 anos, mas, segundo ele, aparentando a idade dele.

Brincamos um pouco.

Mas, mesmo enquanto sorria, havia algo em seu rosto que revelava sofrimento.

Era como se uma parte dele estivesse ali, diante de mim, enquanto outra permanecesse presa à perda dos últimos dias.

Depois de algum tempo, respondi:

— Caso exista algum segredo para viver bem, talvez ele esteja na maneira como percebemos a vida.

Viver bem não significa viver sem dor.

Significa não abandonar o presente toda vez que a dor chega.

Há sofrimentos que precisam de cuidado.

Outros precisam de tempo.

Alguns exigem tratamento.

Mas todos pedem presença.

A dor se torna ainda mais pesada quando, além de senti-la, lutamos desesperadamente para negar que ela existe.

O sofrimento faz parte do processo que chamamos de viver. Não precisamos procurá-lo, desejá-lo ou transformá-lo em virtude. Mas, quando ele chegar, podemos permitir que nos ensine alguma coisa.

Nascer é o primeiro movimento da existência.

Depois vêm os encontros, os vínculos, as conquistas, os medos, as perdas e as despedidas.

Viver é estar exposto à beleza, mas também à impermanência de tudo aquilo que amamos.

Talvez todos nós tenhamos algo do príncipe Sidarta.

Existe dentro de nós uma parte que deseja permanecer no palácio.

Queremos acreditar que a velhice, a doença, a perda e a morte pertencem sempre à vida dos outros.

Criamos distrações.

Evitamos conversas.

Ocupamos a mente.

Escondemos as feridas.

Mas aquilo que não queremos olhar não deixa de existir apenas porque desviamos os olhos.

Há uma frase frequentemente atribuída a Jung que expressa bem essa ideia:

“O que você esconde não desaparece.”

Aquilo que negamos continua agindo dentro de nós.

A dor que não é reconhecida pode se transformar em medo, irritação, amargura ou distância.

Por isso, precisamos ser honestos conosco.

Olhar para dentro não é alimentar o sofrimento.

É impedir que ele conduza nossa vida às escondidas.

As respostas fundamentais dificilmente virão dos céus ou do inferno. Elas surgem quando encontramos coragem para atravessar nossos próprios abismos, compreender nossas experiências e reconhecer aquilo que a vida está tentando nos ensinar.

Não escolhemos todas as dores que enfrentamos.

Mas podemos escolher o que faremos com elas.

O sofrimento pode nos fechar.

Pode nos tornar duros, ressentidos e distantes.

Mas também pode ampliar nossa compaixão, aprofundar nossa consciência e nos tornar mais humanos.

A dor, sozinha, não transforma ninguém.

O que transforma é aquilo que fazemos depois que ela nos atravessa.

O sofrimento não deve ser desejado.

Não deve ser romantizado.

Nem toda dor traz uma resposta imediata, e algumas deixam marcas que levaremos por toda a vida.

Mas, quando ela chegar, que encontre em nós não apenas resistência, mas consciência.

E, quando finalmente partir, que não leve consigo apenas uma parte de nós.

Que deixe também algum entendimento.

Alguma coragem.

Alguma humanidade.

Que o sofrimento não passe por nós em vão.

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Sou Elizeu

O que posso dizer sobre mim? Sou aquariano, nascido no Sul e criado na Amazônia Ocidental — com os olhos voltados para o céu e o coração profundamente enraizado na terra.

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