Há alguns dias escrevi sobre sofrimento humano.
Sobre fragilidade.
Sobre a condição de existir sabendo que somos finitos.
A reflexão nasceu da psicologia. Mas hoje percebo que o tema talvez seja ainda maior.
Porque aquilo que observamos na clínica, nas relações humanas e até dentro de nós mesmos também aparece claramente na cultura contemporânea.
E foi então que me lembrei de Friedrich Nietzsche e de sua figura mais inquietante em Assim Falava Zaratustra: o “último homem”.
Confesso que, durante muitos anos, li essa passagem quase como uma metáfora filosófica exagerada.
Hoje não mais. Hoje vejo esse personagem caminhando pelas ruas, pelas redes sociais, pelas instituições e até nas estruturas políticas modernas.
Nietzsche descrevia um tipo humano que já não queria grandeza, profundidade ou transformação.
Queria apenas conforto.
Segurança.
Prazer imediato.
Ausência de sofrimento.
Um ser humano que lentamente abandona qualquer impulso de superação interior.
E talvez a frase mais assustadora dessa visão seja justamente a mais simples:
“Nós inventamos a felicidade.”
Mas Nietzsche dizia isso com ironia. Porque essa felicidade não era plenitude. Era anestesia.
O “último homem” não quer enfrentar o caos da existência.
Não quer correr riscos.
Não quer suportar tensão.
Não quer carregar responsabilidades proporcionais aos próprios desejos.
Quer direitos sem peso.
Reconhecimento sem esforço.
Resultados sem construção.
Importância sem profundidade.
E quanto mais observo o mundo contemporâneo, mais percebo que essa ideia talvez não tenha sido apenas filosofia.
Talvez tenha sido diagnóstico.
Hoje existe uma dificuldade crescente de suportar qualquer desconforto existencial.
A tristeza vira intolerável.
A frustração vira agressão.
O limite vira opressão.
A responsabilidade vira violência psicológica.
E, aos poucos, vamos criando uma cultura que não forma indivíduos fortes.
Forma indivíduos dependentes de proteção constante.
Não digo isso a partir de moralismo.
Digo a partir da observação.
Da clínica.
Da política.
Das relações humanas.
Da vida cotidiana.
Existe uma diferença enorme entre proteger pessoas vulneráveis…
e transformar vulnerabilidade em identidade permanente.
Talvez o ponto mais profundo de Nietzsche fosse exatamente este:
uma civilização começa a adoecer quando perde completamente sua capacidade de suportar sofrimento.
Porque sofrimento não é apenas destruição.
Às vezes é justamente o que produz:
- consciência,
- maturidade,
- profundidade,
- transformação,
- caráter.
Sem resistência, talvez não exista expansão humana.
E talvez seja exatamente isso que estamos começando a perder.
Curiosamente, escrevo isso não apenas a partir da filosofia.
Mas também do empirismo.
Da observação concreta da vida ao longo das décadas.
Percebo cada vez mais pessoas acreditando que o simples fato de existir lhes concede uma espécie de direito absoluto à satisfação contínua.
Como se a vida tivesse obrigação de não frustrar ninguém. Mas a existência nunca fez esse acordo conosco.
A vida continua exigindo:
- responsabilidade,
- adaptação,
- esforço,
- renúncia,
- maturidade.
Talvez por isso o sofrimento humano continue existindo apesar de toda tecnologia, conforto e avanço material.
Porque o vazio existencial não nasce da falta de prazer.
Nasce, muitas vezes, da ausência de sentido.
E talvez o “último homem” de Nietzsche seja perigoso justamente por isso:
não porque seja cruel, mas porque perdeu a capacidade de transcender a própria mediocridade confortável.
No fundo, talvez a grande tragédia contemporânea não seja o sofrimento.
Talvez seja uma humanidade que já não suporta mais crescer através dele.

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