Há pessoas que passam a vida inteira fugindo da ideia da morte.
Outras, como eu, passam décadas refletindo sobre ela.
Lendo.
Pensando.
Escrevendo.
Tentando compreender a existência humana para além do medo.
Com o tempo, acreditamos que certas questões já estão resolvidas dentro de nós. Mas então, um dia comum, numa consulta médica comum, algo acontece.
Não uma tragédia.
Não um diagnóstico devastador.
Apenas uma observação clínica: uma pequena calcificação numa artéria.
E, de repente, aquilo que era apenas filosofia toca o corpo.
A mente entende. Mas o organismo sente.
Voltei para casa caminhando lentamente pelas ruas do bairro.
Pensando.
Não sobre a morte em si. Mas sobre como sofremos por possibilidades. Nada havia acontecido.
Nenhum AVC.
Nenhuma dor.
Nenhuma emergência.
Ainda assim, algo dentro de mim havia sido atravessado pela percepção silenciosa da própria fragilidade biológica.
E isso me fez refletir profundamente sobre a condição humana.
Na mesma manhã, eu havia dito a uma jovem paciente que o sofrimento faz parte da vida.
Falei sobre perdas.
Sobre dor.
Sobre como nascer e morrer talvez sejam as únicas verdades absolutas da existência.
Mais tarde, conversando com Deise, falei de maneira excessivamente racional sobre estar “resolvido” com a vida e com a ideia do fim.
Mas percebi, depois, certa insensibilidade em minha fala.
Talvez porque, naquele instante, eu ainda estivesse tentando proteger a mim mesmo da emoção que o corpo começava a sentir.
Porque existe uma diferença enorme entre compreender intelectualmente a finitude…
e sentir a finitude tocar o próprio corpo.
Foi então que li um trecho do psicanalista Rogerio Gracca falando sobre sofrimento, sintoma e condição humana.
E tudo pareceu se encaixar.
A paciente.
A consulta.
O medicamento sobre a mesa.
Minha fala.
Minha reflexão posterior.
Como se o próprio dia estivesse tentando me mostrar algo simples: ninguém atravessa a existência apenas pela razão.
Nem mesmo aqueles que passaram a vida tentando compreender a alma humana.
O corpo também fala.
E às vezes ele nos lembra, silenciosamente, que continuamos humanos.
Talvez maturidade não seja deixar de sentir medo, angústia ou vulnerabilidade.
Talvez maturidade seja conseguir observar tudo isso sem fugir de si mesmo.
Sem negar.
Sem dramatizar.
Sem transformar a vida numa guerra contra a própria condição humana.
Naquela manhã, tomei a primeira dose do medicamento.
Continuei minha dieta.
Mantive minhas caminhadas.
Observei meus pensamentos.
E segui.
Porque talvez viver com consciência não signifique vencer a fragilidade.
Mas aprender a caminhar com ela.
No fundo, talvez o sofrimento não seja um defeito da existência.
Talvez seja apenas uma das maneiras pelas quais a vida nos lembra que ainda estamos vivos.
E talvez o verdadeiro equilíbrio não esteja em se sentir invulnerável.
Mas em continuar vivendo com dignidade mesmo sabendo que somos finitos.

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