Algo que salta aos olhos, tanto na clínica quanto no cotidiano dos negócios, é o entendimento raso da vida em nossa cultura — especialmente na cultura brasileira. Poucas são as pessoas que realmente pensam por si mesmas. Vivemos tempos em que opiniões são reproduzidas como mantras, sem investigação, sem escuta e sem presença.
Essa inquietação voltou à tona enquanto eu trabalhava no projeto do meu novo livro, que trata da escuta dos jovens da geração atual. E confesso: é assustador pensar que em poucas décadas esses jovens estarão no comando das decisões da vida em sociedade.
O que será da nossa convivência coletiva, dos valores comuns, da ética nas relações e da lucidez nas escolhas?
Apesar da apreensão, sou alguém que se esforça para viver no presente com um olhar positivo. Acredito que, assim como a Terra possui mecanismos naturais de autorregulação e equilíbrio, a humanidade — sendo parte dessa mesma natureza — talvez também esteja sujeita a uma espécie de correção cíclica, mesmo que tardia e dolorosa. Torço por isso. Mas torcer não basta.
Um povo com pouca capacidade de reflexão tem, inevitavelmente, um destino temerário.
Foi por isso que a sugestão do novo slogan da clínica — “Com escuta, palavra e presença” — me tocou tão profundamente. Ele resume a urgência que vivemos: precisamos reaprender a escutar, a elaborar nossa palavra, a estar verdadeiramente presentes. Isso, que parece simples, é raríssimo em uma sociedade adormecida em certezas rasas.
Hoje preciso tocar num tema que raramente trago aqui: estatísticas. E por quê? Porque não há outra forma de mensurar a real profundidade (ou a ausência dela) da alma de uma nação sem olhar para os dados.
Segundo o INAF, quase 30% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais. Ou seja, são pessoas que frequentaram a escola, mas não conseguem interpretar o básico do que leem — um bilhete, um contrato simples, uma manchete de jornal. Isso é muito mais grave do que os 5% a 6% que sequer sabem ler ou escrever.
Disse um colunista ao comentar essa pesquisa: “são pessoas que percebem o mundo e fazem escolhas baseadas em mensagens de WhatsApp”. E, infelizmente, ele não exagerou.
A simples ideia de viver em uma sociedade composta por uma maioria que não lê com compreensão já seria alarmante. Mas viver entre pessoas que acreditam compreender, e ainda assim decidem com base em mensagens virais e vídeos de 15 segundos — isso é aterrador.
Recordo aqui uma frase de Freud sobre os requisitos mínimos para que alguém se beneficie de uma análise: ele dizia que era praticamente impossível fazer psicanálise com alguém sem cultura — isto é, sem capacidade de refletir — ou com má índole. Traduzindo: pessoas que não desenvolvem o hábito de pensar criticamente ou que deturpam deliberadamente a realidade, não suportam o espelho da escuta profunda.
Talvez isso explique por que, mesmo em psicoterapia, encontramos indivíduos que, sem nunca terem lido uma linha de fontes sérias, sustentam crenças com tamanha rigidez que dispensam qualquer debate. É uma ignorância sustentada pela convicção, como no famoso bordão de Chicó em O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna:
“Não sei, só sei que foi assim.”
Como falar de autoconhecimento com alguém que é analfabeto funcional?
Como esperar que uma pessoa faça autocrítica, se ela está tão cheia de certezas frágeis que nunca foram postas à prova?
É tempo de promover uma escuta que vá além da palavra falada — uma escuta que atravesse a superfície do discurso pronto. Talvez o maior desafio do nosso tempo seja esse: cultivar indivíduos capazes de ouvir, refletir e mudar de ideia. Só assim poderemos sonhar com uma sociedade menos reativa e mais consciente.


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