Quem nunca se sentiu invadido pela curiosidade alheia ou foi censurado por não demonstrar pertencimento a “padrões” sociais, sendo visto como diferente? Para mim, isso foi uma constante em minha vida. Houve um episódio curioso que despertou em mim essa percepção sobre pertencimento, e, naquele dia, percebi que não me encaixaria.
Lembro-me de quando era garoto, por volta dos 13 ou 14 anos, numa véspera de Natal. Eu e alguns colegas, todos do mesmo grupo religioso de cristãos pentecostais — nossas famílias praticavam essa fé com fervor — resolvemos nos encontrar. O mais velho do grupo trouxe algumas bebidas, e acabamos ficando embriagados. O mais curioso foi que começamos a dizer uns para os outros que não estávamos bêbados, porque pertencíamos àquela igreja, éramos cristãos devotos, e assim por diante… Ríamos muito enquanto falávamos sobre isso.
A partir daquele momento, algo mudou dentro de mim. Comecei a me questionar: por que não deveríamos ser como as outras pessoas? Por que julgávamos tanto aqueles que tinham crenças ou comportamentos diferentes?
Para nós, as pessoas que bebiam, por exemplo, estavam condenadas ao inferno, e isso era uma verdade inquestionável. Engraçado, pois depois daquele dia passei a questionar a doutrina da igreja, mesmo sem jamais repetir aquele evento até completar 20 anos, quando definitivamente deixei aquela religião.
Percebi que ideias como céu e inferno, conforme havia aprendido e praticado por tanto tempo, não faziam mais sentido. Quando penso nisso, vejo o quanto a ignorância imposta pelo dogmatismo pode cegar a alma do indivíduo. O simples fato de pertencer a um grupo e comungar das mesmas crenças seria suficiente para “salvar” a pessoa no reino de Deus?
Ao ler Jung, encontrei uma explicação brilhante sobre o poder dos mitos e sua importância para o sentimento de pertencimento e para o sentido da vida. Jung mostra que os mitos não são simples histórias, mas representações simbólicas das forças internas que todos nós carregamos e que dão sentido à existência.
Por outro lado, compreendi o quanto as doutrinas podem cegar os indivíduos, limitando a visão à letra das crenças, em vez de abraçar o significado mais profundo que elas podem conter.
Uma expressão muito comum nesses grupos religiosos é a importância das doutrinas, que, segundo eles, representam a verdade porque “está escrito na Bíblia”.
Por anos, refleti sobre os textos bíblicos, especialmente sobre o significado do pecado original em Gênesis 2 e 3, onde a expulsão dos primeiros humanos do paraíso é interpretada literalmente pelos crentes. Adão e Eva desobedecem a Deus ao comerem do fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Isso nunca fez muito sentido para mim, já que, segundo o que aprendi, Deus ama o ser humano, e fomos criados à imagem e semelhança do Criador.
O mito da criação sempre chamou minha atenção de forma especial: que fruto seria esse, e por que o conhecimento seria pecado? Após estudar psicologia, especialmente a psicologia analítica, encontrei uma resposta nas obras de Jung que fez todo sentido para mim. Trata-se da origem da consciência; esse mito deve ser compreendido como um símbolo da nossa transição para a consciência plena, nossa “queda” no mundo da dualidade e da autopercepção, para que realmente faça sentido.
A visão de Jung esclarece que a Bíblia e outros textos sagrados têm múltiplos níveis de entendimento e que tais segredos são revelados somente aos “iniciados” — àqueles que se permitem enxergar além do literal.
Jung nos ensina que a ciência ou a razão jamais poderão oferecer uma verdade objetiva e completa sobre o ser humano, pois tratam do mundo externo, enquanto os mitos atuam diretamente na psique, despertando realidades internas profundas.
Dessa forma, se interpretamos essa rica mitologia da Bíblia em termos psicológicos, em vez de literais, ela revela um sentido muito mais profundo e relevante para a alma humana.
A alma humana é o que há de mais sofisticado em nós. Ela nos coloca entre a sanidade e a loucura, entre a luz e a sombra. É no íntimo da alma que os mitos têm o poder de despertar nossa realidade psíquica e nos conduzir para além dos limites do ego, em direção a um verdadeiro autoconhecimento.

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