Sobre riqueza, presença e aquilo que não percebemos
Ontem uma paciente me escreveu cedo: “Estou indo para o trabalho… me sinto tão bem. Parece que tudo tem mais cor.”
Guardei a frase sem perceber.
Hoje, enquanto organizava o café da manhã, pedi à Alexa que tocasse jazz e bossa nova. Coloquei as xícaras devagar. Como sempre faço. Quase um ritual.
E então veio.
Um flash.
Meu pai montando a mesa.
Minha mãe assoviando quando estava feliz.
Foram segundos.
Mas senti uma satisfação serena. Cheia.
Lembrei também do dia em que o caixão dele descia à cova. Minha mãe dizia, entre lágrimas: “Por que você me abandonou? Por que deixou eu e as crianças?”
As crianças já eram adultas. Era 2007.
Meu pai tirou a própria vida. Lamentava sua condição financeira. Falava como se nada houvesse dado certo.
Mas nada faltava.
Havia café.
Havia mesa posta.
Havia uma mulher que assoviava de felicidade ao lado dele.
Hoje entendo algo que talvez ele não tenha conseguido ver.
Riqueza não é ausência de preocupação.
É presença.
Enquanto eu alinhava as xícaras, percebi: eu estava vivendo exatamente aquilo que ele viveu — mas com outro olhar.
O mesmo gesto.
Outra consciência.
Talvez seja isso que muda as gerações.
Não os fatos.
Mas o modo de vê-los.
A frase da paciente ecoava: “Tudo tem mais cor.”
Hoje o café tinha mais cor.
Meu pai montava a mesa.
Minha mãe assoviava.
Ele não sabia que já era rico.
E me pergunto:
quantas vezes também não vemos a abundância que já está posta à nossa frente?

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