Você já se irritou com uma piada boba?
Já se magoou profundamente com uma simples brincadeira?
Talvez nem fosse tão grave assim, mas te doeu como se fosse.
Outro dia, ouvi de uma paciente universitária:
“Doutor, sinto que estou indo bem na jornada de autoconhecimento, como o senhor sempre diz, mas há comentários de outras pessoas que me machucam… e eu não sei por que isso me afeta tanto.”
Essas reações — desproporcionais, explosivas ou silenciosamente ressentidas — podem ter uma origem mais profunda do que parece.
Segundo nos ensinou Jung, quando nos sentimos feridos por pequenas provocações, não é o adulto que está no comando.
É a criança interior. Aquela parte de nós que ficou congelada no tempo, parada em alguma dor da infância.
Ela ainda espera ser compreendida, acolhida, validada.
E, quando não é… reage.
O que nos fere hoje quase sempre tem raiz no ontem.
Na crítica do pai, na ausência da mãe, no silêncio da casa, no riso que zombava de algo que nos doía.
Essas marcas não desaparecem com o tempo — tornam-se sombras: fragmentos esquecidos de nós mesmos.
A escuta clínica, nesse sentido, é um retorno.
É como entrar num quarto escuro e encontrar uma criança esperando por alguém que a ouça de verdade.
Na análise, ajudamos o paciente a perceber:
“Essa dor não é nova. Ela está repetindo algo antigo.”
E, pouco a pouco, esse adulto vai aprendendo a acolher sua própria criança — em vez de esperar que o mundo o faça.
Esse é o começo do processo de individuação.
É quando deixamos de reagir automaticamente e passamos a responder com consciência.
Não negamos a criança interior, mas damos a ela um novo lugar: o da escuta, e não da direção.
Se algo te fere com frequência, observe:
Talvez não seja o mundo que te machuca,
mas uma parte sua que ainda não foi abraçada.

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