Hoje é 04 de maio de 2025. Era por volta de 3h12 da madrugada quando meu filho mais novo — o sétimo — me chamou. Um pedido de atenção sutil, mas inadiável. Troquei sua fralda, dei seus três biscoitos favoritos e, após um breve aconchego, ele voltou a dormir.
Eu, não.
Acordar no meio da noite, depois dos cinquenta, é quase sempre um despertar da alma também. Foi então, entre o silêncio e o sussurrar do tempo, que algo me transpassou:
Qual seria o sentimento que melhor resume a condição humana contemporânea?
Pensei nas vozes que escuto na clínica. Nas análises íntimas que faço de mim mesmo. Nos comentários nas redes, nos discursos religiosos, nas análises políticas e no que nos tornamos como sociedade.
A resposta veio com clareza: carência.
A Era do Esvaziamento
Vivemos um tempo em que as certezas perderam lugar.
Certezas nas relações, nas instituições, na fé, na política, na própria identidade. O que era sólido, hoje se desmancha — como já antecipava Zygmunt Bauman ao falar da modernidade líquida.
Nesse derretimento do que antes sustentava a existência, surgiu um fenômeno psíquico generalizado: a carência extrema.
A alma humana, privada de fundamentos perenes, tornou-se um campo de falta.
Falta de sentido.
Falta de pertencimento.
Falta de afeto real.
Falta de si mesma.
O Sintoma Invisível
Na clínica, o discurso é outro, mas o fundo é o mesmo.
“Doutor, sinto um vazio que me consome.”
“Eu tenho tudo, mas parece que não tenho nada.”
“É como se algo estivesse faltando — só não sei o quê.”
Essa carência não é apenas emocional. Ela é ontológica.
É o eco da alma tentando se reencontrar consigo mesma, num mundo que oferece distração em vez de profundidade. Likes em vez de vínculos. Promessas rápidas em vez de raízes profundas.
Preenchimentos Falsos
Diante desse buraco interno, a sociedade moderna reage com substituições apressadas:
Religiões que vendem prosperidade instantânea.
Relacionamentos líquidos que evaporam na primeira frustração.
Consumismo disfarçado de autoestima.
Espiritualidade pasteurizada.
Terapeutas-coach prometendo cura em três passos.
Tudo parece tentar tampar o buraco da carência.
Mas são remendos frágeis — como biscoitos de vento: confortam por um instante, mas não nutrem.
A Carência como Chamado
Talvez estejamos olhando a carência de forma equivocada.
E se ela não for apenas um sintoma de adoecimento?
E se for, também, um chamado da alma?
Na linguagem de Jung, a falta pode ser o início do caminho para dentro.
A carência aponta para algo que precisa ser buscado — não fora, mas dentro.
Na escuta.
Na presença.
Na reconstrução do vínculo com o próprio ser.
Porque quem se perdeu de si, vai buscar o outro para tapar esse buraco.
Mas quem se reencontra, transborda.
E já não precisa mendigar afeto — porque se abastece na fonte que nunca seca: a própria alma em estado de verdade.


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