Há dias em que nada muda por fora.

E, no entanto, tudo se desloca por dentro.

Naquele dia, cumpri agenda.
Corrigi contrato.
Assinei documentos.
Orientei trabalho.

Fiz o que precisava ser feito.

Mas havia algo diferente: eu não estava agarrado a nada.

A vida acontecia diante de mim com sua pressa de sempre, suas exigências, seus pequenos comandos invisíveis. Só que, desta vez, eu não fui arrastado.

Eu via.

Apenas via.

Tudo começou depois de uma quebra banal da rotina. Deixei o carro na oficina e segui de aplicativo. Não precisei dirigir. Não precisei controlar o caminho. Não precisei conduzir.

E talvez tenha sido aí.

Talvez a alma só precisasse disso: que minhas mãos soltassem o volante.

A partir de então, o dia ganhou outra textura. As coisas continuaram reais, mas perderam peso. Os compromissos seguiam ali, intactos, só que já não pareciam absolutos.

Era como assistir ao cotidiano sem ser engolido por ele.

Não era distração.
Não era cansaço.
Não era fuga.

Era um estado de presença sem esforço.

Uma calma sem apatia.

Uma distância sem ausência.

O mais curioso é que eu não sentia meu ego no comando. O velho gerente do turno — sempre atento, calculando, antecipando, cobrando — parecia ter recuado.

Não desapareceu.

Apenas deixou de reinar.

Outra parte de mim, mais sutil, mais silenciosa, parecia atravessar o dia. Uma parte sem pressa de vencer, sem ansiedade por resultado, sem fome de confirmação.

Eu fazia o que precisava ser feito.

Mas era como se alguém em mim já soubesse que nada daquilo era o centro de tudo.

E então compreendi, ainda que sem palavras, que a realidade cotidiana talvez seja mais frágil do que parece. Não falsa. Não inexistente. Mas frágil. Como uma superfície de imagens que costumamos levar a sério demais.

Tudo parecia um filme.

E eu, pela primeira vez em muito tempo, não queria disputar papel algum dentro dele.

Só observar.

Talvez Freud tivesse razão: o homem não é senhor em sua própria casa. Há em nós forças, regiões, presenças que não pedem licença ao ego para existir.

Naquele dia, uma delas veio à tona.

Não fez barulho.
Não exigiu interpretação.
Não pediu grandiosidade.

Trouxe apenas silêncio.

E com ele, uma leveza rara.

Até meu zumbido pareceu mais distante, como se o corpo também soubesse que havia menos atrito entre mim e o mundo.

Menos ruído.
Menos urgência.
Menos ficção.

Cumpri o dia inteiro assim: presente, funcional, sereno.

Mas sem aquela velha servidão interior à pressa, ao resultado, à frustração, ao dever transformado em peso.

Fiz o que havia para fazer.

E só.

Talvez a maturidade comece nesse ponto: quando o cotidiano continua o mesmo, mas já não ocupa o trono.

Quando o ego ainda trabalha, mas perde o direito de governar tudo.

Quando a vida deixa de ser uma arena e volta a ser uma paisagem.

Naquele dia, fui outro para mim mesmo.

Ou talvez tenha sido, enfim, menos personagem e mais presença.

Menos o homem que reage.
Mais o homem que testemunha.

Menos aquele que quer controlar o fluxo.
Mais aquele que consente em ver.

Há dias em que a alma não quer produzir.

Não quer conquistar.

Não quer sequer explicar.

Quer apenas isso:

ficar em silêncio
e assistir.

Há um tipo de paz que não nasce quando o mundo se aquieta, mas quando o ego, por um instante, deixa de se sentir o centro de tudo.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Sou Elizeu

O que posso dizer sobre mim? Sou aquariano, nascido no Sul e criado na Amazônia Ocidental — com os olhos voltados para o céu e o coração profundamente enraizado na terra.

Let’s connect