Acho que Nietzsche estava certo quando escreveu que aquele que tem um porquê para viver pode suportar quase qualquer como.

Há frases que não envelhecem. Apenas nos esperam. Ficam em algum lugar da memória, quietas, até que um dia a vida nos obriga a compreendê-las de verdade.

Durante muito tempo, pensei na resistência humana quase como um dever. Algo simples. Natural. Como se suportar o peso dos dias difíceis fosse apenas parte do que qualquer pessoa faria. Mas hoje percebo que não é tão simples assim. Nem todo mundo continua. Nem todo mundo suporta. Nem todo mundo encontra dentro de si uma razão forte o bastante para permanecer de pé.

Talvez por isso essa frase de Nietzsche me acompanhe.

Já ouvi dizer que quase ninguém se sente realmente pronto. Quase ninguém se sente plenamente capaz. Ainda assim, as pessoas seguem. Trabalham. Lutam. Recomeçam. Carregam dores silenciosas. Enfrentam perdas. Fazem o que precisa ser feito, mesmo quando a alma vacila.

Isso faz sentido para mim.

Quando estive diante dos maiores desafios da minha vida, não me recordo de ter parado para medir forças. Eu apenas seguia. Havia em mim algo combativo. Uma esperança teimosa. Uma recusa íntima em me entregar ao que parecia querer me dobrar.

Em 2020, alguém me perguntou como eu havia me tornado resiliente.

A pergunta me soou estranha.

Porque, sinceramente, eu não via aquilo como resiliência. Via apenas como vida. Como necessidade. Como a única saída possível para quem não quer ser vencido por dentro. Fiz o que estava diante de mim. Caminhei como pude. E talvez isso revele algo importante: muitas vezes, a força não se anuncia como força. Ela apenas age.

Admito, porém, que talvez exista em mim uma inclinação natural para o otimismo. Não um otimismo ingênuo, desses que negam a dor. Mas uma espécie de disposição interior que insiste em acreditar, mesmo quando as circunstâncias parecem escuras. Como se minhas emoções positivas, em algum nível profundo, sempre encontrassem um modo de sobreviver.

E aqui chego a um ponto que me inquieta.

Falamos das emoções como se fossem excessos. Como se fossem um problema a ser controlado. Como se a lucidez estivesse sempre do lado da razão. Mas, olhando bem, o que seria de nós sem as emoções? Elas nos confundem, é verdade. Às vezes nos traem. Às vezes nos arrastam. Mas também são elas que sustentam o amor, a coragem, a esperança, o desejo de continuar.

Talvez as emoções sejam menos um obstáculo e mais o próprio chão da experiência humana.

Penso, cada vez mais, que a esperança que me manteve predisposto a enfrentar as dificuldades não nasceu apenas da razão. Ela parece vir de um lugar mais fundo. De uma região que não controlo inteiramente. Algo abaixo da superfície. Algo anterior às justificativas. Algo que simplesmente pulsa.

Freud diria que há em nós uma vida psíquica subterrânea, um inconsciente atuando independentemente da consciência. E essa ideia, para mim, faz sentido. Porque muitas vezes sentimos antes de entender. Reagimos antes de explicar. Persistimos antes mesmo de saber de onde vem a força.

As emoções talvez brotem exatamente daí: de um solo oculto, fértil e desconhecido, que existe na base do iceberg da mente.

Lembro-me de uma cena que me tocou profundamente.

Era um documentário da BBC sobre a vida monástica nas montanhas do Tibete. Um garoto de apenas oito anos subia uma encosta coberta de neve com uma mochila nas costas. Havia esforço no corpo. Havia dificuldade nos passos. Seu rosto estava inchado por causa de caxumba. Tudo naquela imagem falava de limite.

Então o repórter perguntou se ele sentia medo de caminhar por ali.

E o menino respondeu com serenidade:

“Se eu mantiver meu coração forte, não terei medo.”

Nunca esqueci isso.

Aquela frase me atravessou de um modo que poucas coisas atravessam. Talvez porque, naquele instante, eu tenha me reconhecido nele. Talvez porque eu também estivesse tentando atravessar minha própria montanha. Era o período em que fui demitido do emprego, logo após o divórcio. Havia neve por dentro. Havia subida. Havia peso.

E, no entanto, algo continuava me empurrando adiante.

Hoje penso que esse algo tinha nome.

Não era apenas coragem. Não era apenas disciplina. Não era apenas resistência.

Era um porquê.

Um motivo silencioso. Uma fidelidade íntima à vida. Uma chama pequena, mas viva, que se recusava a se apagar.

No fundo, é isso que nos salva.

Não a ausência da dor.
Não a facilidade do caminho.
Não a garantia de que tudo dará certo.

O que nos salva é encontrar um sentido que seja maior do que o sofrimento.

Porque quando o ser humano encontra um porquê verdadeiro, ele descobre dentro de si uma força que a lógica sozinha não explica.

E então o como, por mais duro que seja, deixa de ser o fim.

Vira travessia.

No fim, quem sustenta o passo não é a força do corpo, mas a fidelidade da alma ao seu próprio porquê.

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Sou Elizeu

O que posso dizer sobre mim? Sou aquariano, nascido no Sul e criado na Amazônia Ocidental — com os olhos voltados para o céu e o coração profundamente enraizado na terra.

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