Quando dizemos que entendemos da vida, talvez estejamos dizendo apenas que começamos a observar como nos tornamos quem somos.

A existência consciente, para mim, tem tudo a ver com isso.

Com a forma como a personalidade vai sendo construída.

Com as marcas que o ambiente deixa.

Com os encontros, as faltas, os silêncios, os excessos.

Mas, sinceramente, não acredito que tudo venha apenas de fora.

Há algo mais antigo em nós.

Algo mais fundo.

Algo que talvez já estivesse ali desde o início.

Talvez no temperamento.

Talvez em alguma inclinação invisível.

Talvez, como muitos diriam hoje, em nossa própria constituição biológica.

Sou empirista.

Por isso, confio muito naquilo que observo com honestidade.

E o que observo, ao longo da vida, é que certas pessoas revelam muito cedo algo essencial de si.

Há crianças que, mesmo pequenas, demonstram delicadeza, senso de cuidado, uma bondade quase espontânea.

E há outras que, ainda muito cedo, manifestam dureza, prazer em ferir, frieza diante da dor do outro.

Isso não significa que tudo esteja determinado.

Mas também não me parece sensato fingir que todos partem exatamente do mesmo ponto.

Talvez o ser humano não seja uma folha em branco.

Talvez sejamos um campo de possibilidades, mas com tendências reais desde o começo.

E então surge a pergunta inevitável:

se há bondade, por que há tanta maldade?

Se existem pessoas boas, por que o mundo continua sendo atravessado por tanta crueldade?

Pensei nisso nesta manhã.

Talvez influenciado pelas notícias de guerras.

Talvez pelo cansaço de ver, século após século, a humanidade repetindo seus impulsos mais primitivos, mesmo vestida de tecnologia, discurso e civilização.

Olhei, em pensamento, para o Oriente Médio.

Berço de antigas civilizações.

Terra de resistência, escassez, fé, domínio, sobrevivência.

Um lugar onde a história parece nunca descansar.

Há povos ali que demonstram ordem, disciplina, força coletiva.

Mas há também regimes, perseguições, brutalidade, repressão.

E então me pergunto:

como pode existir tanta organização externa e, ao mesmo tempo, tanta violência moral?

Talvez porque uma sociedade nunca seja apenas o que ela produz em aparência.

Ela é, no fundo, o resultado da consciência — ou da inconsciência — de seus indivíduos.

Uma coletividade é sempre mais do que leis, bandeiras e instituições.

Ela é a soma viva dos medos, desejos, traumas, ambições e crenças de seu povo.

E quando o medo domina a consciência, o extremismo encontra terreno fértil.

Extremismos nunca construíram o melhor da experiência humana.

No máximo, construíram obediência.

E obediência não é paz.

Silêncio não é harmonia.

Controle não é maturidade.

O problema da maldade talvez não esteja apenas na existência de pessoas más.

Talvez esteja, sobretudo, no fato de que a maldade encontra abrigo em estruturas que a justificam.

Quando a violência ganha discurso, ela se torna política.

Quando ganha aplauso, se torna cultura.

Quando ganha repetição, se torna normalidade.

E talvez seja isso que mais assusta:

não o mal em sua forma bruta, mas o mal quando se torna razoável aos olhos de muitos.

Ainda assim, não penso que a resposta esteja em desespero.

Penso que esteja em consciência.

Em perceber que o conflito coletivo começa, quase sempre, nos conflitos não reconhecidos do indivíduo.

Uma humanidade menos cruel talvez não dependa apenas de tratados, sistemas ou governos.

Talvez dependa, antes, de homens e mulheres capazes de olhar para dentro e reconhecer o que carregam.

A sombra que negam.

A raiva que escondem.

O medo que projetam.

A dor que transformam em domínio.

Porque aquilo que não é elaborado dentro de nós quase sempre buscará expressão fora.

Às vezes em palavras.

Às vezes em relações.

Às vezes em regimes inteiros.

No fundo, talvez a pergunta não seja apenas por que existe tanta maldade.

Talvez a pergunta mais honesta seja:

por que o ser humano ainda resiste tanto a conhecer a si mesmo?

Enquanto não fizermos essa travessia interior, continuaremos tentando corrigir o mundo com as mesmas mãos que ainda não aprenderam a tocar a própria alma.

E talvez seja por isso que a história, tantas vezes, muda de roupa —

mas repete o mesmo corpo.

Reflexão:

Não haverá paz duradoura entre os homens enquanto cada um continuar em guerra dentro de si.

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Sou Elizeu

O que posso dizer sobre mim? Sou aquariano, nascido no Sul e criado na Amazônia Ocidental — com os olhos voltados para o céu e o coração profundamente enraizado na terra.

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