Às vezes, o sofrimento não nasce apenas do que estamos vivendo, mas da distância que criamos entre nós e o presente.

Estamos, nesta manhã, em um pequeno hotel de beira de estrada.

Ontem, por causa de uma virose do pequeno Jr., tivemos de interromper o caminho. Foi preciso parar numa cidade para buscar ajuda médica. Nesta época do ano, quando tantas crianças adoecem, Deise insistiu que procurássemos atendimento. E há de se dizer: as mães, quase sempre, sofrem antes, durante e depois. Há nelas uma espécie de dor antecipada que o amor produz.

Nós, homens, muitas vezes funcionamos de outro modo. Não necessariamente por frieza, mas por pragmatismo. Enquanto esperávamos, eu fazia contas silenciosas. Pensava que, em mais duas horas e meia de viagem, estaríamos em casa. E em casa tudo pareceria mais simples: o pediatra conhecido, o lugar familiar, o amparo das referências já conhecidas.

Mas a espera se alongou.

Três horas.

Três horas de cadeiras, expectativa, observação e cansaço.

E, ao final, saímos sem atendimento.

Do lado de fora, entre a exaustão e a necessidade de decidir, eu disse à Deise algo simples: o Júnior já havia tido outros quadros parecidos. E ela mesma, em outras ocasiões, soube cuidar dele e resolveu. Passamos então numa farmácia, compramos a medicação que o pediatra já havia receitado em episódios semelhantes e fomos para um hotel.

Às vezes, a vida não nos entrega grandes soluções.

Entrega apenas o próximo passo possível.

E quase sempre é ele que basta.

Hoje pela manhã, no café do hotel, o menino amanheceu bem. Muito bem. Com aquela melhora que não pede explicações, apenas gratidão.

Enquanto tomávamos café, olhei ao redor.

Vi outros casais. Outros filhos. Outras famílias provisoriamente reunidas naquele espaço comum. Gente na estrada, gente em trânsito, gente lidando com suas pequenas urgências, seus contratempos, seus cansaços, seus afetos.

E houve, naquele instante, uma percepção serena.

Quase como se a alma falasse baixo, sem querer chamar atenção.

Muitas vezes, a ansiedade nasce porque deixamos de olhar para o que temos.

Ou, mais do que isso, deixamos de reconhecer o que já está conosco.

O que já sabemos.

O que já vivemos.

O que já aprendemos.

O que já suportamos antes.

O que já fomos capazes de atravessar.

Em vez disso, a mente se inclina para aquilo que falta. Para o que ainda não aconteceu. Para o que talvez nem aconteça. Para o futuro que se desenha como ameaça antes mesmo de se tornar realidade.

Lembrei-me então da conhecida frase atribuída a Schopenhauer:

“Raramente pensamos no que temos, mas sempre no que nos falta.”

Talvez uma parte importante do sofrimento humano esteja contida nessa pequena constatação.

Há uma inclinação em nós para a falta.

Para o risco.

Para a hipótese.

Para a perda imaginada.

Para o medo daquilo que ainda não chegou.

E, enquanto isso, o presente passa despercebido.

Não vemos que já há amparo.

Não vemos que já há experiência.

Não vemos que já há recursos interiores.

Não vemos que já atravessamos outras noites difíceis.

Não vemos que, às vezes, aquilo que chamamos de desespero é apenas a mente se afastando da realidade e correndo na frente do corpo.

A ansiedade, em muitos momentos, é isso: uma deserção do presente.

O corpo está aqui.

Mas a mente, arrastada pelo medo, já foi habitar um futuro sombrio que ainda não existe.

Talvez por isso o sofrimento ansioso seja tão exaustivo. Porque ele não lida apenas com o real. Ele tenta lutar contra fantasmas. Contra possibilidades. Contra imagens internas que se impõem como se fossem fatos.

Mas a vida, vez ou outra, nos devolve ao essencial com delicadeza.

Um quarto simples de hotel.

Uma criança melhorando.

Uma manhã comum.

Uma mesa de café.

Outras famílias em silêncio.

E a súbita percepção de que, naquele exato instante, já havia mais bem do que ameaça.

Mais abrigo do que falta.

Mais presença do que medo.

Talvez amadurecer seja, em parte, isso: aprender a confiar mais no que a vida já construiu em nós do que nos cenários que o medo inventa.

Não se trata de negar a preocupação.

Nem de desprezar o cuidado.

Nem de romantizar o sofrimento das horas difíceis.

Trata-se apenas de perceber que nem todo alerta interior é verdade.

Que nem toda inquietação é um chamado legítimo.

E que, muitas vezes, a mente nos empurra para longe daquilo que poderia nos sustentar.

Há sabedoria em olhar para frente.

Mas há paz em não perder de vista o que já está aqui.

O que temos.

Quem temos.

O que sabemos.

O que já vencemos.

O quanto já fomos capazes de cuidar, decidir, suportar e seguir.

Talvez a vida interior comece a amadurecer quando deixamos de viver somente a partir do que nos falta e começamos, enfim, a habitar com reverência aquilo que já nos foi dado.

Porque, no fundo, a alma quase nunca grita.

Ela apenas espera que a mente se aquiete o suficiente para perceber que, às vezes, aquilo que procuramos desesperadamente no amanhã já está, em silêncio, posto sobre a mesa desta manhã.

E talvez seja justamente aí que a paz começa:

quando, por um instante, paramos de correr atrás do que falta

e finalmente enxergamos o que nunca deixou de estar conosco.

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Sou Elizeu

O que posso dizer sobre mim? Sou aquariano, nascido no Sul e criado na Amazônia Ocidental — com os olhos voltados para o céu e o coração profundamente enraizado na terra.

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