(Reflexões às vésperas dos 60)

Na juventude buscamos conquista.

Queremos provar valor.
Queremos ocupar espaço.
Queremos vencer.

Há pressa.
Há comparação.
Há ambição.

A vida é medida em avanço.


Queremos segurança.
Queremos proteger o que construímos.
Queremos dar estrutura à família.
Queremos honrar compromissos.

Na maturidade buscamos estabilidade.

A vida passa a ser medida em equilíbrio.


Mas existe um terceiro movimento.

Ele não é anunciado.
Não é celebrado.
Não vem com medalhas.

Na plenitude buscamos entendimento.


Às vésperas dos 60 anos, percebi algo curioso.

Não sinto medo da morte.
Não sinto que deixei de viver.

Realizei sonhos.
Tive mais filhos do que planejei.
Escrevi livros.
Enfrentei dores que me transformaram.
Reconstruí minha história quando ela parecia desmoronar.

Se partisse hoje, estaria em paz com minha existência.

E foi exatamente essa paz que me surpreendeu.

Porque, mesmo em paz, ainda há inquietação.

Não de falta.
Mas de profundidade.


O que me dá frio na barriga hoje não é acumular mais.

É compreender mais.

Compreender a consciência.
Compreender o mistério de estarmos aqui.
Compreender como este mundo, tão ambíguo, foi capaz de produzir ética, amor e reflexão.

Não é sobre conquistar novos territórios.

É sobre entender o território interior.


Percebi que há fases na vida.

Na juventude lutamos contra o mundo.
Na maturidade organizamos o mundo.
Na plenitude investigamos a nós mesmos dentro do mundo.

E essa investigação não é fuga.

É responsabilidade.

Se a consciência é o fenômeno mais extraordinário que este universo produziu,
então ignorá-la seria a verdadeira negligência.


O autoconhecimento deixa de ser ferramenta de crescimento.

Torna-se dever existencial.

Não para eliminar o sofrimento.

Mas para não ser governado por ele.

Não para ter todas as respostas.

Mas para amadurecer as perguntas.


Aos 60, não sinto que estou terminando algo.

Sinto que estou integrando.

Integrando conquistas e quedas.
Integrando força e vulnerabilidade.
Integrando razão e mistério.

A estabilidade já não é suficiente.

A conquista já não é prioridade.

O entendimento é o que dá densidade aos dias.


Descobri algo simples.

Não precisamos resolver o enigma da existência para viver com dignidade.

Precisamos apenas não fugir dele.

Ir para dentro não é afastar-se do mundo.

É aprofundar a forma como o habitamos.


Talvez a verdadeira maturidade seja esta:

Aceitar que o mistério permanece.
E ainda assim escolher viver com justiça, paz e amor.


Se você está atravessando essa fase, não se apresse.

Não tente reacender a ansiedade da juventude.
Não se prenda apenas à segurança da maturidade.

Permita-se compreender.

Porque quando o entendimento amadurece,
a vida deixa de ser corrida
e se torna presença.

E presença é a forma mais elevada de liberdade.

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Sou Elizeu

O que posso dizer sobre mim? Sou aquariano, nascido no Sul e criado na Amazônia Ocidental — com os olhos voltados para o céu e o coração profundamente enraizado na terra.

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