Texto publicado originalmente em 2021, revisitado em 2026 — quando a forma cedeu lugar à presença.
Durante muito tempo, acreditamos que a vida segue em linha reta.
Como se houvesse um roteiro invisível, traçado desde a infância até o fim.
Como se tudo estivesse dado.
Mas basta olhar com mais atenção para perceber: não é assim que a vida acontece.
Há fases em que algo nos estreita.
Outras em que tudo se abre.
Há períodos de contenção, silêncio e perda.
E há momentos de expansão, liberdade e bonança.
O caminho não é linear.
Ele se dobra.
Na infância, somos mais atravessados pelo mundo externo.
Família.
Ambiente.
Expectativas.
Ainda assim, mesmo ali, algo em nós escolhe.
Nem sempre conscientemente.
Mas escolhe.
Talvez por isso sejamos tão diferentes de nossos irmãos.
Talvez por isso alguns se afastem radicalmente do modelo familiar em que cresceram.
Talvez porque o que nos move não seja apenas o que nos ensinaram — mas o que ressoa.
A maioria das pessoas não se detém nessas perguntas.
Segue.
Repete.
Adapta-se.
Pensar em linha reta é confortável.
Mas empobrece.
Quando alguém ousa sair do automático, algo se rompe.
A vida deixa de ser apenas vivida e passa a ser interrogada.
Não para ser explicada.
Mas para ser assumida.
Há escolhas mesmo quando nos dizem que “a vida é o que é”.
Há liberdade mesmo sob condicionamentos.
Não absoluta.
Mas real.
Somos singulares.
E cada forma de viver cobra seu preço — não como punição, mas como consequência.
O caminho das pedras não é um trajeto imposto.
É o rastro que deixamos ao caminhar.
E, cedo ou tarde, cada um de nós reconhece que não escolheu tudo o que lhe aconteceu, mas escolheu — sempre — como estar diante disso.
O caminho não é dado. Ele se forma à medida que é vivido.

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