Há canções que não envelhecem.
Elas apenas aguardam maturidade em quem as escuta.
Durante muito tempo, ouvi Infinita Highway como quem ouve uma boa música.
Hoje, percebo que ela descreve um estado de consciência.
Quando se passa a viver em presença, algo muda de forma silenciosa.
Você sai do modo automático.
E, de repente, tudo fica mais claro.
Não porque a vida se torne perfeita.
Mas porque há um intervalo na escuridão.
Os gestos simples ganham sentido.
Cozinhar deixa de ser tarefa.
Conversar deixa de ser distração.
Escrever deixa de ser esforço.
Nada parece aleatório.
Quando o silêncio interno aumenta, a percepção se amplia.
O que era raro se torna comum —
não por perder valor,
mas por passar a ser visto.
Percebo isso também nas conversas com a Deise.
Falamos sobre a vida quase todos os dias.
Temas profundos, tratados com leveza.
Sem embriaguez.
Sem fuga.
Presença não é êxtase.
É lucidez.
Nesse estado, a vida não acelera.
Ela aprofunda.
O dia deixa de ser apenas mais um.
E passa a ser experiência.
Presença é quando tudo fica mais claro — mesmo sem mudar nada ao redor.

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