Quando minha filha, ao concluir o curso de Letras, afirmou que já não havia mais nada a ser escrito — que tudo o que precisava ser dito já havia sido dito — algo em mim se levantou.
Não como discordância intelectual.
Mas como espanto existencial.
Talvez porque escrever, para mim, nunca tenha sido sobre dizer algo novo ao mundo.
Sempre foi sobre me escutar.
Hoje, diante da tela em branco, observo o cursor piscando.
Ele não acusa.
Não exige.
Apenas permanece.
E, curiosamente, é essa intermitência que me chama.
Escrever não é terapia no sentido comum.
É escuta profunda.
É o momento em que o ego afrouxa o controle e deixa passar algo que não nasce da razão organizada, mas de uma região mais funda — sem nome preciso.
Quando escrevo, não estou explicando.
Estou permitindo.
Cada texto é um encontro silencioso comigo mesmo.
Não com o “eu” que conheço.
Mas com fragmentos que emergem, se reconhecem e, por instantes, se integram.
Há algo de humilde nisso.
Porque a escrita me ensina, repetidas vezes, que não sou uma versão pronta.
Sou camadas.
E talvez jamais conheça todas.
Ao concluir Assuma Sua Vida, compreendi algo essencial:
não importa quem sou hoje.
Na jornada interior, não há melhor nem pior.
Há apenas lampejos de consciência — breves, imperfeitos, suficientes.
Assim como o cursor que pisca, o sentido não está no destino.
Está no movimento.
A continuidade não me pertence.
O futuro não me obedece.
Escrevo porque ali encontro presença.
E isso basta.
Não busco a verdade.
Busco o autoconhecimento.
A verdade absoluta, talvez, só seja acessível à ingenuidade —
àquela versão de nós que ainda acredita saber.
Hoje, prefiro não saber.
Prefiro escrever.

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