Desde as primeiras horas deste novo ano, senti o impulso de escrever.
Mas nada vinha.
Nenhuma imagem. Nenhuma emoção clara. Nenhuma inspiração imediata.
Até que, como um insight — ou talvez um déjà-vu —, lembrei-me de uma frase de Marco Aurélio, escrita por volta do ano 200 d.C.:
“Hoje eu me encontrarei com um homem intrometido, um ingrato, um arrogante, um enganador, um invejoso, um antissocial.”
Quem acompanha meus textos sabe que não sou pessimista, tampouco alguém desanimado diante da vida.
Justamente por isso, pensei: qual melhor maneira de iniciar um novo ano senão com os dois pés fincados na realidade?
Talvez isso tenha relação com o fato de este ser o ano em que completo seis décadas de existência.
A maturidade, quando chega, cobra coerência.
E envelhecer, ao menos para mim, não é negar a realidade — é aprender a olhar para ela sem ilusões.
Lembrei também da expressão consagrada de Nelson Rodrigues:
“A vida como ela é.”
Viver com presença exige aceitar que, em cada dia, inevitavelmente, encontraremos pessoas ingratas, arrogantes, invejosas ou antissociais.
Essa constatação não deve nos endurecer — mas nos educar interiormente.
Não se trata de dar a outra face.
Mas, muitas vezes, de virar o rosto para o outro lado.
Preservar a própria paz é um ato de inteligência emocional.
O estoicismo nos lembra que isso sempre fez parte do cotidiano humano, em qualquer século.
O ponto central não é o comportamento do outro, mas como permitimos que isso nos afete — ou não.
Talvez o primeiro passo seja simples e exigente ao mesmo tempo: escutar mais e falar menos.
Abster-se dos excessos — de palavras, de ações, de ambições desmedidas.
Cultivar a paz como virtude máxima.
Não como fuga, mas como consciência.
Há, afinal, três grandes certezas na vida:
nascemos um dia, sofreremos ao longo do caminho,
e, inevitavelmente, morreremos.
Essa tríade — nascimento, sofrimento e morte — é inescapável.
O que muda tudo é a maneira como escolhemos atravessá-la.
O sofrimento existe, mas não é eterno.
Ele depende, em grande parte, da leitura que fazemos dos acontecimentos e das escolhas que assumimos diante deles.
Costumo repetir — e sigo acreditando — que só existe um tempo possível para viver a vida: o presente.
E, neste ano que se inicia, mais do que nunca, desejo caminhar assim:
com os dois pés no chão, coerente comigo mesmo, respeitando o outro,
sabendo que a minha felicidade não depende do mundo —
mas da forma como eu me coloco diante dele.
Aceito a realidade.
Preservo a paz.
Vivo o presente.
—Inside “Vá para dentro de si e seja livre.”

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