Hoje o dia começou de maneira extraordinária.

E, como acontece nos momentos verdadeiramente marcantes, não foi planejado.
Veio como um insight simples e profundo: “É sempre a concepção de mundo que determina o tamanho do nosso mundo.”

Vivi longos períodos de vazio.
Não de depressão — nunca estive deprimido —, mas de frustração persistente, de insucessos, de tentativas que raramente ofereciam alento.

Durante quase uma década, fui mantido como refém de um sistema que me acusou por condutas que jamais pratiquei.
Um processo criminal injusto.
Uma espera interminável.
Uma vida suspensa.

Hoje pela manhã, algo aconteceu.

Eu descia do carro quando, do nada, o nome de uma pessoa atravessou minha mente.
No instante exato em que fechei a porta, o celular vibrou.

Era ela.

Uma mensagem.
Um áudio curto.
Poucas palavras — e uma eternidade se dissolveu ali.

“Oi, Elizeu. Tenho ótimas notícias para o seu Natal.
O recurso que contestava sua absolvição não prosperou.
Nós vencemos.
Você pode comemorar.”

Foram nove anos condensados em segundos.

Difícil descrever o que senti.
Posso apenas afirmar: foi real, foi intenso, foi presente.

Era como se, de repente, uma via recém-pavimentada surgisse diante de mim — ampla, limpa, livre de obstáculos.
Uma avenida nova, aberta onde antes havia apenas bloqueios invisíveis.

Olhei ao redor.
Olhei adiante.

E inúmeras possibilidades, antes impensáveis, tornaram-se novamente possíveis.

Pensei: se me libertei desse calvário de quase uma década, o que poderei construir na próxima?

Como costumo dizer, há algum tempo aprendi a viver no presente.
Talvez porque imaginar o futuro sempre tenha sido perigoso demais enquanto a ameaça rondava.

Ainda assim, pensamentos surgiam:
as filhas se formando médicas — Rebeca, Sarah e Sofia —;
a chegada, pela Sharon, da minha neta Maria;
o sentimento silencioso de missão cumprida;
o pequeno Jr pronunciando as primeiras palavras;
as viagens que faríamos de motorhome — eu, Deise e o Jr — talvez conhecendo as Américas.

Mas tudo isso permanecia suspenso enquanto o risco da prisão existia — risco que poderia, a qualquer momento, interromper cada um desses grandes eventos por vir na família.

Esse temor se justificava.
Fui preso.
Passei passei pelo cárcere.
Outros tantos meses monitorado em casa.

Hoje, naquele instante, isso deixou de existir.
Virou passado.

E então compreendi algo com ainda mais clareza:

Cada alma carrega uma missão nesta existência.
Quando caminhamos em direção oposta a esse propósito, mesmo com esforço, colhemos apenas resistência, frustração e vazio.

A vida parece empacar.
A alma reclama.

Somente quando a percepção muda é que o sentido começa a se revelar.

Para alguns, isso acontece cedo.
Para outros, leva uma vida inteira — e há quem parta sem nunca compreender.

Voltei para casa como sempre.
Preparei o almoço — tarefa simples, cotidiana, quase ritual.

Enviei mensagens a pessoas que sentiram, na própria pele, minha angústia durante esses anos de espera.
Cada resposta trouxe alívio.
Alegria.
Uma espécie de celebração silenciosa.

E então me perguntei:

O que acontece com a vida quando uma grande ameaça deixa de ocupar a mente?

Para mim, essa ameaça foi a última coisa que ainda me roubava o sono.
A última a invadir madrugadas com pensamentos em enxurrada.
A última a sabotar até os sonhos mais simples — como as viagens que Deise, às vezes, sugeria pela Europa ou pela América do Norte.

Ontem mesmo vivi uma cena reveladora.

Sentado na cadeira do barbeiro, após finalizar a barba, ele disse:

Doutor, está pronto. Agora pode começar as comemorações natalinas.

E completou, curioso:

Faço sua barba há anos… e o senhor nunca me falou de um sonho.

Respondi com naturalidade:

— Sonhos são para jovens como você.
Para mim, tenho desejos simples.
Se no próximo ano, num dia como hoje, eu estiver exatamente assim — sentado aqui, conversando com você — eu não mudaria nada.

Pensei nos sete filhos.
Em seus desafios.
Na minha condição física.
Na relação com minha amada Deise.
Na rotina simples de cozinhar, cuidar do pequeno Jr, viver o dia.

Concluí: não preciso de nada além do que já tenho.

O jovem barbeiro sorriu: — O senhor é uma pessoa sensata. Sabe o que quer.

E eu soube, naquele instante, que era verdade.

Se no próximo ano eu estiver exatamente como estou hoje, não pedirei mais nada ao universo.

Estou bem.
Estou inteiro.

Amo o presente.

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Sou Elizeu

O que posso dizer sobre mim? Sou aquariano, nascido no Sul e criado na Amazônia Ocidental — com os olhos voltados para o céu e o coração profundamente enraizado na terra.

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