Neste ano em que deixo a faixa etária dos cinquentões, algo ficou mais claro do que nunca: maturidade não é sobre idade — é sobre propósito. É sobre compreender quem somos e para onde estamos correndo.
Hoje, durante a corrida de rua, tive essa percepção com a nitidez de uma manhã fria encoberta por leve neblina. Havia todas as faixas etárias competindo. Gosto dessa imagem: um mar de corredores, amadores e elites, cada um vivendo sua própria batalha silenciosa.
Como largamos por último, a Deise — minha treinadora e esposa — disse com calma: “Espere todos saírem. Só depois cruze a linha e acione o smartwatch.”
Obedeci, mas confesso: fiquei ansioso ao ver a pista livre. Quando enfim cruzamos o pórtico, em menos de 200 metros já ultrapassávamos dezenas de corredores. Olhei o pace e percebi que estava rápido demais. Reduzi. Mantive o trote. Mesmo assim, seguíamos ultrapassando pessoas, muitas delas jovens, já caminhando logo no início.
A frase da Deise ecoou em mim:
“Sua corrida deve ser progressiva. Comece devagar. Aumente o ritmo com consciência.”
E ali, no compasso das passadas, comecei a entender a metáfora:
a vida é uma corrida de 5 km. Cada quilômetro é uma década. Cada escolha é um passo. Cada emoção descontrolada é uma subida desnecessária.
Enquanto os quilômetros avançavam, notei que ultrapassava justamente aqueles que haviam saído em disparada na largada. Um padrão se repetia: jovens aceleravam, me ultrapassavam, quebravam… e eu, com meu trote constante, passava por eles novamente — pela terceira, quarta, quinta vez.
Então veio o insight:
na vida, a maioria larga rápido demais. Age pela emoção. Desperdiça energia onde deveria poupar e freia quando deveria aproveitar o terreno a favor.
Observei meus batimentos. Quando chegavam ao meu limite seguro (Z5), respirava fundo, ajustava a passada e seguia exatamente no ritmo que planejei. E sorri. Porque percebi que já fiz o contrário inúmeras vezes: forcei situações, antecipei decisões, fui guiado pela pressa emocional — e quebrei.
Nos últimos 300 metros, vi muitos jovens exaustos, quase parando. E eu seguia firme, com corpo e mente melhores do que em todas as outras provas que corri sem planejamento.
A vida é assim.
Entramos em relacionamentos, negócios e decisões importantes com a impulsividade de quem acredita estar em uma corrida de 100 metros. E quebramos. A maturidade é descobrir que estamos, na verdade, em uma prova longa — e que energia mal administrada cobra seu preço.
Hoje, aos 59 anos, compreendo que cada fase da vida é um quilômetro que exige atenção ao que ainda vem pela frente. Quem aprende cedo vive com menos percalços. Quem aprende tarde, como eu, precisa lidar com as cicatrizes — mas ainda assim evolui.
Não se trata de evitar sofrimento, mas de aprender com ele.
Não se trata de correr rápido, mas de correr consciente.
Não se trata de vencer os outros, mas de vencer a si mesmo.
Na vida, o ritmo é tudo.
E os melhores treinadores são a prudência, a cautela e o autoconhecimento.

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