Como acontece quase todas as madrugadas, o pequeno Jr chama por atenção.
Hoje foi minha vez de atendê-lo.
Deise e eu temos esse trato tácito de alternância: um dia eu, no outro ela.
Coube-me ir ao quartinho do moleque e terminar a noite ao lado dele.

E foi ali, ainda no escuro, que despertei com uma ideia incômoda:
e se o livre-arbítrio for uma impossibilidade?

Mais tarde, como geralmente acontece, esbarrei num texto sobre a Teoria dos Jogos.
E tudo se encaixou como num tabuleiro:
a premissa de que não existe um ser verdadeiramente livre e consciente —
a não ser, talvez, no estado de natureza.
E mesmo aí a liberdade já nasce condicionada: fome, abrigo, frio, predadores.
A “liberdade” nunca é absoluta; sempre foi negociada.

E então fica a provocação:
nossas escolhas são realmente nossas?

Segundo John Nash, ninguém escolhe no vazio.
Escolhemos dentro de cenários.
Reagimos ao jogo.
Ajustamos nossas ações conforme as ações dos outros.
Fazemos o “melhor possível” dentro de limitações que raramente reconhecemos.

Isso contraria a ideia romântica de livre-arbítrio.

No ambiente doméstico, por exemplo, o pequeno Jr — com seus quatro anos —
é o jogador mestre.
Deise e eu somos peças em seu tabuleiro.
Ele define o tempo, a dinâmica, a atenção, o fluxo da madrugada.
Nós apenas respondemos ao jogo.

E isso se repete em qualquer ambiente.

Nos negócios, observo isso diariamente.
Sou psicanalista e consultor político e vejo profissionais experientes caindo em becos narrativos criados por terceiros.
Quem observa de fora percebe quando alguém está na defensiva —
há pessoas que só sabem jogar desse lado.

Outros, porém, são criadores de cenários:
montam o tabuleiro, deixam as peças se moverem,
e silenciosamente já sabem onde a partida termina.

Assim como no xadrez, quem vê o jogo com mais clareza tem mais chances de não ser capturado.

A Teoria dos Jogos, quando você realmente a entende,
não é sobre ganhar.
É sobre compreender por que fazemos o que fazemos —
e, portanto, questionar se o livre-arbítrio realmente existe.

Eu gosto das minhas conversas matinais com a Deise.
É a mulher mais inteligente que conheci.
Falo de um insight e ela imediatamente liga ao campo exato do conhecimento.
Quando mencionei a liberdade, ela respondeu sem hesitar:
“Claro: a liberdade é sempre relativa.”

E é mesmo.

Saber o que nos leva a escolher
é mais importante do que realizar algo que é fruto da escolha de outro.
Reagir não é escolher.
E a maioria das pessoas passa a vida apenas reagindo.

Ontem mesmo me pediram um discurso de apoio político diante de uma injustiça.
Ao analisar de fora, percebi que meu cliente estava sendo manobrado por uma jogada alheia — e acreditando que estava agindo por convicção.
Faltava-lhe distância do tabuleiro para perceber o jogo.

Como diria a geração Z: que doideira.

Isso vale para tudo — do lar às altas esferas de poder.
O problema não é o jogo.
É acreditar que estamos no controle quando
,
na maior parte do tempo, somos apenas peças.

E não se trata de vencer ou perder.
No final, todas as peças voltam para a mesma caixa.

Para entender uma sociedade, é preciso se afastar dos discursos,
das ideologias e das narrativas,
e ouvir o que importa: quais escolhas sua alma realmente deseja?

O que é você, afinal?
Por que escolhe como escolhe?
O que te move?
E qual sentido você está construindo ao jogar?

Sim, precisamos jogar o jogo — mas não precisamos permanecer na posição de peão.

No ambiente doméstico, às vezes o jogador principal é um filho pequeno.
Mas isso não dura para sempre.
Com o discernimento, cabe a nós ensinar sobre o jogo da vida e a verdade da liberdade:

Ela existe — porém sempre dentro de limites.

E talvez o primeiro deles seja reconhecer que não somos tão livres quanto acreditamos.

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Sou Elizeu

O que posso dizer sobre mim? Sou aquariano, nascido no Sul e criado na Amazônia Ocidental — com os olhos voltados para o céu e o coração profundamente enraizado na terra.

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