Há mais de cem anos, Freud escreveu O Mal-Estar na Civilização e O Futuro de uma Ilusão.
Em plena década de 1920, quando o mundo ainda era mais lento, comunitário e concreto, ele já enxergava um problema que se tornaria gigante: o choque entre nossos desejos e as exigências da sociedade.
Naquele tempo, as pessoas viviam experiências mais tangíveis.
O trabalho era físico.
As relações eram diretas.
Os limites eram claros: tempo, espaço, rotina.
Havia uma certa “materialidade” na vida.
Mesmo assim, Freud alertou: o ser humano sofre porque vive dividido entre o que quer e o que o mundo exige.
Hoje, no século 21, esse conflito ganhou uma dimensão inédita.
Não vivemos mais em um mundo concreto.
Vivemos em um mundo fragmentado, digitalizado e hiperestimulado.
A comparação é constante.
As expectativas são irreais.
O ritmo é desumano.
A mente não tem descanso.
É como se a alma do indivíduo estivesse sempre atrasada em relação ao corpo.
E os sintomas aparecem — silenciosos primeiro, devastadores depois.
Ansiedade.
Depressão.
Vazio existencial.
Perda de sentido.
Aquela sensação de que “algo está errado”, mesmo quando tudo parece certo.
Os psiquiatras chamam de “mal do século”.
Freud chamaria de excesso de exigência e falta de si mesmo.
A verdade é simples: nenhum ser humano suporta viver muito tempo longe de sua própria essência.
Quando o sujeito se desconecta de quem é, quando ele vive para atender padrões, quando a vida vira uma corrida sem direção… o sofrimento aparece como um sinal.
Não como punição, mas como aviso.
O corpo sente.
A alma grita.
E a mente começa a desmoronar.
Mas existe um caminho.
E não é externo.
É interno.
O autoconhecimento não é luxo.
É necessidade.
É higiene mental.
É a única forma de viver o presente sem ser engolido por esse mundo que exige demais e entrega pouco.
Quando o indivíduo começa a observar seus próprios padrões, quando aprende a respirar no próprio ritmo, quando encontra significado na própria história, algo muda.
Ele se ancora.
Ele se reconhece.
E o mundo perde seu poder de controle.
O mal do século não vence quem vive acordado para si mesmo.
No fim, o que Freud antecipou há cem anos não era o fim da civilização, mas um convite:
olhar para dentro antes que o mundo nos leve para fora de nós.
E esse convite continua atual.
Mais do que nunca.

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