No caminho da individuação há mais silêncio do que barulho.
Sou empirista — só falo daquilo que percebo no cotidiano.
Hoje, me veio à memória um traço de personalidade que muitos poderiam chamar de fraqueza: ser empata.
Mas foi exatamente essa qualidade que, no fim, me fez vencer e realizar meus sonhos.
Descobri isso de forma inusitada.
Tenho uma capacidade rara de virar páginas depois de decepções, faço isso, com muita facilidade.
Não é frieza nem racionalidade: é um movimento da alma.
Como diria Jung, trata-se de “uma erupção do Eu sobre a Persona” — uma transformação psíquica profunda, dolorosa e libertadora.
E não há meio mais eficaz de descobrir se você é empata do que conviver com um narcisista.
Durante a vida, conheci e convivi com alguns.
O empata, quando se quebra, não é tomado pela raiva — mas pela compreensão silenciosa de um drama que nunca foi seu.
O empata não nasceu para enxergar apenas a alma do outro; nasceu para suportá-la… e, quando desperta, para libertar-se dela.
O empata não luta — ele se recolhe.
Não causa guerra — ele compreende.
Tive um irmão mais velho narcisista.
Durante muito tempo, o mundo da minha família orbitou em torno dele.
Era, sem dúvida, o sujeito mais inteligente que conheci — e talvez, o mais cruel.
Desde jovem percebi o que havia por trás de sua genialidade: uma alma doente, consumida pelo próprio reflexo.
Acho que tudo começou com um sonho. Eu tinha cerca de 23 anos.
Sonhei que me despedia de meus irmãos ao pé da escada de um avião que decolava em frente a uma igreja.
Hoje percebo o simbolismo: era o início da minha partida do mundo teísta em que vivi até então.
Anos depois, recebi mensagens dos filhos dele, relatando o diagnóstico: transtorno narcisista em grau severo.
Não me surpreendi.
A notícia apenas confirmou o que vivi — a dor silenciosa de crescer ao lado de alguém incapaz de ver o outro.
Meus pais sofreram muito.
Ele os interpretava como personagens de um roteiro no qual era sempre o herói.
Nunca ouvi dele uma verdade inteira.
Inventava mundos complexos, justificava fracassos e projetava culpas.
A família afundava — e, ainda assim, ele se via como o salvador.
Eu fui o oposto.
Não fui filho mais amado — e talvez por isso, aprendi a me bastar.
Criei minha própria família: sete filhos, três casamentos.
Passei por divórcios sem me perder.
Nunca culpei ninguém pelas minhas dores; também nunca atribuí minhas conquistas à sorte.
Tudo o que alcancei veio da observação atenta e do momento certo de agir — o que, para mim, é o verdadeiro sentido da sorte.
Ser empata me ensinou a ser resoluto.
A buscar meus próprios sonhos, não os sonhos dos outros.
Aprendi a ouvir, mas a confiar apenas em quem merecia ser ouvido.
E, por fim, compreendi que empatia não é “colocar-se no lugar do outro”, como se repete por aí.
É compreender o grau de consciência do outro e, a partir disso, saber o que esperar — e até onde ir.

Deixe um comentário