Quando o cotidiano revela o espelho da consciência
Creio que, em algum momento do dia a dia, todos nós conseguimos ver o outro além das nossas próprias necessidades ou desejos.
Pelo menos comigo, isso acontece com frequência.
Não falo apenas das pessoas que pedem ajuda nos sinais de trânsito.
Refiro-me àqueles instantes sutis em que o olhar se abre — e não julgamos.
Mas a verdade é que todo ser humano julga.
A ciência mostra que, nos primeiros três segundos ao ver alguém, o cérebro já formula avaliações automáticas.
É um processo ancestral, uma forma de sobrevivência.
Quase sempre, de modo inconsciente, respondemos a três perguntas:
1 – É uma ameaça para mim?
2 – É algo que desejo?
3 – Tem alguma utilidade?
Hoje, durante minha corrida matinal, percebi isso de forma nítida.
A rua estava quase deserta: alguns ciclistas a caminho do trabalho e poucos, como eu, exercitando corpo e mente.
Então, vi uma mulher.
Nunca a havia visto antes.
Tinha entre quarenta e cinquenta anos, vestia-se de modo simples, carregava uma bolsa nos ombros e caminhava com passos apressados.
Não parecia estar se exercitando.
Por um instante, pensei em dizer “bom dia”.
Mas permaneci em silêncio.
E, sem perceber, minha mente começou a tecer hipóteses:
quem era ela?
o que fazia ali, naquele horário incomum?
Foi então que me dei conta — estava julgando.
Ontem eu havia assistido a um documentário sobre longevidade.
Falava de uma pequena cidade cujo lema era: “a cidade da longevidade”.
No final, uma frase me atravessou:
“Quando a vida ganha um prazo, tudo ganha novo sentido.” (Diego Elzinga).
E senti que o trivial ganhava nova cor:
o cheiro da comida, o barulho do vento, o toque de quem amamos.
Tudo se torna mais vívido quando aceitamos a finitude.
Talvez por isso meus pensamentos tenham se detido naquela mulher.
Em poucos meses, completarei sessenta anos.
E essa consciência do tempo me faz ver o mundo com outra sensibilidade.
Hoje, já não vivo movido pelo desejo de conquistar,
mas pela vontade profunda de compreender a jornada da alma humana —
sobretudo, a da minha própria alma.
Não me culpo pelo passado, nem temo o futuro.
Encerrando cada dia por vez, percebo que minha sensibilidade se ampliou.
Quero ver mais cores.
Sentir mais cheiros.
Perceber as nuances do toque.
E, acima de tudo, viver o contato de alma para alma.
Acredito que a consciência nunca morre.
Apenas deixa de interagir com o mundo físico.
Mas, se tiver tocado outras almas — se tiver despertado nelas o desejo de se conhecer —então ela se eterniza.
Pensamento final
“Quando o olhar deixa de julgar e passa a compreender, a alma enxerga a si mesma refletida no outro.”

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