Completei cinquenta anos sendo levado para trás das grades, acusado injustamente. Hoje, próximo dos sessenta, olho para trás e percebo: o tempo não esperou. Ele seguiu, impassível, como sempre faz. Enquanto eu me ocupava em provar minha inocência, os anos se sucederam.

E nesse intervalo? Vivi.

Mesmo com medo, mesmo com escassez, mesmo com a solidão que tantas vezes me visitou. Amei, chorei, sonhei. Enfrentei a pandemia da covid-19. Recomecei empreendendo em diferentes caminhos — da charcutaria à consultoria política, da advocacia à psicanálise. Concluí duas pós-graduações, escrevi vinte e cinco livros e eBooks.

Nestes dez anos, minha prole floresceu e encontrou seus próprios caminhos. Vi nascer meu filho caçula, o sétimo, em 2021. A primogênita, Carina, tornou-se uma profissional de excelência na sua área. Eduardo revelou-se um empreendedor nato, um homem de quem me orgulho de ser pai. Sarah, Rebeca e Sofia trilham o árduo caminho da medicina. E Sally, minha filha letrada, concluirá em breve o curso de Direito, prestes a me dar o primeiro neto.

A vida se recompôs, financeiramente e emocionalmente. E recentemente, com Deise e o Jr., viajei em um motorhome pela Serra Gaúcha, contemplando paisagens de tirar o fôlego.

Houve dores. Mas, se coloco na balança, foram mais os momentos de alegria do que os de tristeza.

No fim, a lição é clara: o tempo é implacável. Não para. Não espera. Se não vivermos o presente, ele se tornará apenas ausência.

Costumam dizer que devemos viver cada dia como se fosse o último. Mas ninguém nos lembra que é justamente o momento presente que molda o futuro. O futuro não nasce de sonhos distantes, mas do sentido que damos ao agora.

Talvez por isso a imortalidade pertença apenas aos deuses — porque o ser humano não suportaria viver eternamente. Nossa condição é a transitoriedade, como corpos frágeis, sujeitos a doenças repentinas que apagam existências em poucos meses.

Conheci pessoas fortes, cheias de energia vital, que desapareceram tão rápido quanto uma chama ao vento. Algumas viveram plenamente, outras apenas sobreviveram, sem se dar conta da dádiva que é existir.

O tempo, esse senhor eterno, segue como se nossa vida fosse apenas um sopro. Às vezes penso que somos como bolhas de sabão que as crianças assopram: efêmeras, frágeis, belas em sua diversidade de cores e formas. Talvez os deuses se divirtam com a nossa variedade assim como as crianças se encantam com as bolhas que criam.

Sendo o tempo implacável e nós passageiros, resta-nos apenas uma atitude: olhar para o presente com atenção e gratidão. Fazer de cada instante um ato de sentido.

Como dizia Viktor Frankl, não cabe a nós perguntar o que esperamos da vida. A questão é reconhecer que a vida espera algo de nós — hoje, aqui, agora.

Uma resposta para “O Tempo Implacável e a Dádiva do Presente”.

  1. Avatar de Sarah Sacha Melo Lima

    o tempo é implacável

    tenho muito orgulho de ser sua filha

    te amo❤️

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Sou Elizeu

O que posso dizer sobre mim? Sou aquariano, nascido no Sul e criado na Amazônia Ocidental — com os olhos voltados para o céu e o coração profundamente enraizado na terra.

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