Na madrugada de um voo entre Porto Alegre e Brasília, tive um sonho que ainda ecoa em mim. Caminhava por um canteiro de obras cheio de cavernas escuras. A cada passo, algo se transformava: as paredes se abriam, salas iluminadas surgiam como se o inconsciente fosse se organizando diante dos meus olhos.
De repente, encontrei rostos do meu passado, ligados ao tempo em que trabalhei na prefeitura — um período marcado por dor e provações. Um desses rostos me chamou pelo nome e mostrou a minha futura sala. Era simples, com uma cadeira de palha e restos de material de obra. Mas, em instantes, aquele espaço se transformou: iluminado, organizado, digno de ser habitado.
Então ouvi: “Você merece, seja bem-vindo ao time, professor.”
Noutra cena, estava entre pessoas influentes e bem vestidas, cercado por cumprimentos e atenção. Primeiro, senti estranhamento. Depois, um alívio profundo: eu me sentia merecedor.
Esse sonho não é apenas uma lembrança noturna. Ele é um símbolo. As cavernas representam nossas dores e memórias escuras. O canteiro de obras, a vida em constante transformação. A sala iluminada, o espaço interno que finalmente se organiza. E a voz que me chamou de “professor” mostra um novo papel: transmitir sabedoria nascida da experiência.
No fim, acordei com um sentimento de paz. Entendi que os traumas não precisam ser apagados, mas ressignificados. O passado pode ser o alicerce daquilo que estamos construindo agora.
A reflexão que fica é simples: todos nós carregamos cavernas internas, mas temos também a possibilidade de transformá-las em salas de luz. O caminho do autoconhecimento é essa travessia.

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