Hoje pela manhã, assisti atentamente ao discurso de um cientista premiado com o Nobel, conhecido como o pai do projeto de Inteligência Artificial. Sua fala foi um alerta — não apenas técnico, mas existencial. Ele evocou Einstein, que, décadas atrás, advertiu o mundo sobre o uso bélico da energia nuclear. Todos conhecem, ao menos de ouvir falar, os horrores deixados pela bomba atômica.
Mas o que me prendeu foi outra coisa: um sussurro antigo que habita as profundezas da alma humana — o desejo de poder, de controle e de dominação.
A IA, penso eu, é talvez a mais extraordinária de todas as criações humanas. Já está incorporada ao cotidiano de bilhões de pessoas. Quer percebamos ou não, ela influencia nossas escolhas, modela nossos desejos e até antecipa nossos pensamentos.
Tal como aconteceu na Revolução Industrial — que transferiu o poder dos latifundiários aos donos das máquinas —, agora vemos a inteligência artificial deslocar, mais uma vez, os centros de poder. Mas há um risco silencioso: o de que, como em tantos outros momentos da história, o engenho humano seja cooptado por sua própria sombra.
Por que a IA pode ser a última grande invenção da humanidade? Talvez porque seja a primeira que ameaça superar nossa intelectualidade. E esse era, até então, um território exclusivamente humano.
Da roda aos foguetes, das cirurgias aos transplantes, das leis escritas às missões espaciais — tudo foi produto do engenho humano e, sobretudo, da colaboração. Mas há um padrão recorrente: cada nova descoberta que poderia aliviar os sofrimentos da existência acaba por ser usada como instrumento de dominação.
Foi assim com a pólvora. Com os aviões. Com a energia nuclear.
É como se toda invenção humana viesse acompanhada de uma maldição: a perpetuação do poder concentrado nas mãos de poucos. O narcisismo da alma humana, sempre tão sedento por se impor, costuma se sobrepor ao bem coletivo.
Hoje, minha reflexão não é sobre a IA, mas sobre a alma humana. O que será dela no futuro próximo, quando até o senso de justiça poderá ser administrado por algoritmos?
Penso nos meus pacientes jovens. Em seus dilemas e crises silenciosas. Uma delas, com os olhos perdidos no vazio da tela, disse:
— Sinto que nem eu escolho mais o que desejo.
Outra, em lágrimas, perguntou:
— Se tudo está pronto, pra que viver?
Há uma solidão que nem a tecnologia consegue preencher. Há um vazio que só a alma pode nomear.
Desde que inventamos a roda, criamos o Estado e registramos a linguagem, nossa evolução tem sido marcada por rupturas e recomeços. Agora, diante desse novo e fascinante mundo controlado por IA, cabe uma pergunta incômoda:
Será que a inteligência artificial poderá nos ajudar a extirpar esse “bug” ancestral — o desejo insaciável de poder — ou rumaremos, lúcidos e impotentes, para a extinção, sem jamais termos compreendido o real propósito da nossa existência neste plano?
Talvez, se formos capazes de usar essa nova inteligência não para dominar, mas para integrar, ela nos ajude a enxergar o que ainda não conseguimos: que não há progresso verdadeiro sem alma — e não há humanidade sem compaixão.

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