Ontem, enquanto publicava o texto Acordar Não É o Mesmo que Despertar, vivi algo que, em mim, ainda ressoa como um chamado.
Eu estava estacionado sob a sombra de uma árvore, numa rua silenciosa próxima da clínica onde meu filho Sete faz terapia. O motor desligado, o mundo lá fora parecia suspenso. Na tela do notebook, o post recém-publicado ainda me atravessava. E mesmo depois de mais de sete anos escrevendo — com mais de 500 publicações no blog — a sensação é sempre a mesma: se ao menos uma pessoa for tocada por aquilo que escrevi, o propósito foi cumprido.
Foi então que o silêncio da rua foi quebrado.
Um homem se aproximou.
Franzino, moreno, empurrando uma bicicleta antiga carregada com alimentos. Uma grande perna de salame se destacava entre os mantimentos. Ele parou ali, ao lado da camionete, e antes mesmo que dissesse qualquer coisa, fez o gesto universal da súplica — mãos unidas, semblante abatido.
— Doutor, eu sou depressivo, tomo um monte de remédio pra depressão…
Começou a listar seus males, como se carregasse o peso do mundo nas palavras.
Ouvi por alguns segundos.
Perguntei o que ele precisava.
— Feijão, doutor. Já consegui arroz e linguiça — disse, apontando para a garupa da bicicleta.
Instintivamente, peguei uma barra de chocolate no carro e estendi a ele:
— Isso aqui vai te dar mais energia que um prato de arroz com feijão, senhor.
Mas ele não pegou.
Falava arrastado, mas não havia sinal de álcool. Seus olhos tinham algo de súplica, mas também de ausência — como quem anda, mas não vive.
Na terceira vez em que disse “sou depressivo”, algo em mim foi ativado.
Não uma técnica. Não um discurso ensaiado.
Foi como se uma voz ancestral surgisse de dentro de mim.
— O senhor diz estar deprimido, toma remédios todos os dias… mas continua deprimido, certo?
Pois então, imagine que sua vida termina hoje, às 18h.
Não haverá amanhã. Não haverá lembranças. Só o hoje.
Se fosse assim… o que o senhor faria?
Minha voz estava mais grave, mais firme. Não era encenação. Era alma.
Ele me olhou sério.
Finalmente pegou o chocolate e, com as mãos postas como em oração, disse assustado:
— Deus me livre, doutor… não quero morrer hoje.
— Mas e se eu estiver certo? — continuei. — E se tudo depender do que o senhor fizer até o fim da tarde? Nada do que está ao seu redor muda por sua vontade, mas uma coisa o senhor pode fazer: mudar o olhar.
O passado não existe. O futuro? Talvez o senhor nem esteja lá.
Só existe o hoje. E isso já é muito.
Quando fui sair com o carro, ele ergueu os braços:
— Que palavras poderosas, doutor… muito obrigado!
Fiquei olhando pelo retrovisor.
Ele ainda repetia aquilo enquanto desaparecia na esquina.
Curiosamente, não lembro de tudo que disse. Foi como se meu inconsciente tivesse assumido o leme.
Não usei técnicas. Não analisei. Falei com a alma.
Talvez ele não viva até amanhã. Talvez viva muitos anos.
Mas naquele instante, fomos dois seres humanos atravessados por algo maior — a consciência de que estar vivo é um milagre.
Isso me lembra o que também acontece neste blog.
Todos os dias, leitores anônimos — de diferentes partes do mundo, classes sociais, culturas — passam por aqui. Às vezes apenas um. Às vezes dezenas, centenas, milhares.
Não os conheço, mas sei que algo nos conecta:
A busca sincera por presença.
A escuta atenta da vida.
A liberdade de assumir a si mesmo com responsabilidade. Como disse àquele homem da bicicleta:
Tudo depende da forma como você olha a vida.
O resto… são só consequências do quanto estamos próximos ou distantes do fluxo.

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