Este mês é o aniversário dele.
Meu irmão Elias. Geminiano.
Sou o filho número onze da minha casa, mas o irmão do coração — meu grande herói — sempre foi ele: Elias, o irmão imediatamente mais velho que eu.
Nossa mãe nos deu nomes de profetas da Torá Judaica: Elizeu, o sucessor de Elias — de quem, segundo a tradição, herdou o manto e o poder.
Mas entre nós, além da simbologia, há um laço que sempre falou mais alto que qualquer doutrina: o vínculo do cuidado, da confiança e da presença silenciosa.
Mesmo que a vida adulta tenha nos colocado em caminhos distintos, sempre torcemos um pelo outro. E, quando nos encontramos — quase sempre por acaso — acontece algo que só acontece com ele: nos abraçamos em silêncio, como se voltássemos a ser crianças buscando abrigo. É nesse instante que nossas almas se tocam. Ali, recarregamos nossas forças. Depois, seguimos.
Se eu tivesse que resumir meu irmão em uma frase, seria:
“Alguém em quem se pode confiar.”
Tínhamos até um pacto antigo: combinamos que, antes do fim da vida, viveríamos como vizinhos numa propriedade rural.
Esse sonho ainda mora em algum canto da minha alma.
Elias foi quem me protegeu na infância, quem me ensinou a dirigir caminhão, quem me mostrou — com o exemplo — o que é ter caráter.
Sempre foi uma fortaleza: inteligente, sensível, firme.
Eu o chamo de “Billy The Kid” desde que éramos pequenos.
O apelido nasceu das revistinhas de faroeste dos anos 70 e 80 — nossos heróis da infância.
Acho que nunca falei isso em público. Mas hoje, ao lembrar do seu aniversário, senti que era hora de deixar registrado.
Porque ele sempre foi, para mim, uma referência de ser humano.
Lembrei de uma aventura que nos marcou — dessas que ficam na alma, não só na memória.
Esses dias, li uma postagem da psiquiatra Ana Beatriz. Ela dizia:
“A vida gosta de quem gosta dela. A vida gosta de quem tem coragem.”
Na hora pensei: eu e Elias já sabíamos disso desde pequenos.
Nossa mãe sempre dizia:
“Pra viver, meu filho, tem que ter coragem.”
Essa frase ecoava dentro de casa.
E um dia, ela virou um grito de salvação.
Eu estava no ensino fundamental. Morávamos na zona rural. A escola ficava a uns 5 km de distância. Íamos a pé, todos os dias.
Era inverno no sul do Brasil — um frio de cortar.
Eu tinha 8 anos, Elias tinha 10.
Levávamos o material escolar, o lanche — e coragem.
Numa dessas manhãs, caiu uma chuva pesada. O vento rasgou nosso guarda-chuva.
Eu comecei a chorar, tremendo de frio e medo.
Elias parou, me olhou com firmeza e disse:
“Nego, não chora. Lembra do que a mamãe disse? Pra viver tem que ter coragem. É pra agora.”
Naquele momento, como se algo invisível me atravessasse, parei de chorar, levantei a cabeça e respondi:
“Eu sou homem. Eu tenho coragem.”
Essa cena — aquela manhã — ficou marcada em nós dois.
Hoje, com quase sessenta anos, meu irmão ainda conta essa história.
E eu também nunca esqueci.
Aquele momento nos forjou.
Marcou nossa fibra moral.
Moldou quem nos tornamos.
Hoje, passadas mais de cinco décadas, depois de tantas lutas, perdas e provações, percebo que, nos momentos mais difíceis, uma voz surge dentro de mim:
A voz de um garotinho molhado, coberto de lama, com frio e fome, dizendo: “Tenha coragem.”
E eu sigo.
Sigo com essa lembrança ao meu lado, numa foto antiga que está comigo no consultório — à minha direita.
Não lembro exatamente quando a coloquei ali, mas já me acompanha há mais de 30 anos.
Ela me lembra daqueles dois meninos enfrentando uma tempestade numa estrada de terra — e vencendo.
Me lembra que, para viver, sim…
é preciso ter coragem.

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