Acordei às 4h34. Aliás, meu bebê Sete, de quatro anos, impôs essa rotina há meses. Então, juntei o útil ao agradável. Seja na infância ou na minha idade de cinquentão, o autocuidado é essencial. Caminho — ou corro — todo santo dia.
Hoje, observei muitas pessoas ao meu redor. Cada uma com seu biotipo. Algumas com esforço visível, outras transpirando leveza e boa forma. Foi aí que me veio um insight — algo que já ouvimos mil vezes, mas que hoje fez um eco diferente em mim:
“Antes de correr, é preciso aprender a caminhar.”
Pensei: antes de ter competência para ensinar alguém, é necessário ter vivido na pele o que se deseja transmitir. Joseph Campbell nos mostrou que o indivíduo só se torna verdadeiramente um herói quando atravessa os desafios da própria jornada — a jornada do autoconhecimento.
Nesta segunda-feira, quero propor uma reflexão que vá além da ideia banalizada de “superação”. Hoje, o termo é tão usado — e mal-usado — nas redes sociais, que quase perdeu seu sentido. Influencers apontam para frases de efeito em vídeos de poucos segundos, prometendo resultados milagrosos em “três passos”.
Mas falo de outra coisa.
Falo da superação de si mesmo, aquela que não segue modismos, nem fórmulas prontas.
Outro dia, em uma sessão, um paciente disse:
— De que adianta fazer isso, aquilo, ou aquele outro projeto, se no final todos vamos morrer?
Respondi:
— Vamos pensar, então, no sentido da vida.
Falei brevemente sobre o tempo e questionei:
— Em que momento podemos realmente fazer nossas escolhas?
Ele pensou um pouco, e respondeu:
— Ué, claro que é agora, no presente!
— Exato. Nossas escolhas são feitas no agora. Você se levantou hoje, decidiu vir ao analista, e aqui está. Agora, vamos supor que hoje fosse seu último dia. O que faria, sabendo que ao entardecer sua existência chegaria ao fim?
É incrível como, em algum momento da vida, todos nós falseamos a realidade — mesmo sem entrar no mérito dos mecanismos de defesa psíquica. Falo do indivíduo mediano, que muitas vezes quer fazer o mínimo e receber o máximo.
Mas é a partir desse ponto que tudo começa a mudar.
É aqui que se separam homens de meninos, mulheres de meninas — ou melhor: indivíduos imaturos dos que amadureceram diante da vida.
A pergunta central é: por que é tão difícil, para a maioria, viver o sofrimento?
Sabemos, pela experiência, que nada é para sempre. Nem a dor, nem a felicidade.
Tudo tem seu momento. E não há garantia do amanhã.
Esse é o ponto: viver o presente, estar em estado de presença. Viver o flow.
Na vida, como disse no início, é preciso caminhar antes de correr.
Ou seja, é preciso aprender.
Compreender.
Aceitar que, se quisermos participar da vida com bem-estar — no coletivo — é imperativo que nos conheçamos melhor.
Caso contrário, seremos apenas números na estatística, não indivíduos.
O sentido da vida, portanto, pode — e deve — ser construído a cada novo dia.
Quantas vezes já fizemos planos no início do ano e, ao chegar dezembro, percebemos que pouco aconteceu como esperávamos?
Lamento dizer, mas com cinco décadas nas costas, sinto que posso afirmar:
Passei pelo limiar. Enfrentei meus monstros. Talvez até tenha salvado donzelas em perigo.
E, ainda hoje, continuo na jornada do autoconhecimento.
Só a partir dela tenho segurança para fazer escolhas e compreender que o propósito da vida é uma busca constante — o santo graal de cada indivíduo sob o sol.

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