Ah, o ego!
Esse que nos convence dos nossos desejos, que infla, exagera, se orgulha… e por vezes nos deixa em saias justas. Ele adora florear a persona. Mas a verdade é: essa persona raramente é capaz de dizer quem realmente somos. Só que mesmo assim, muitas vezes, achamos que somos aquilo que mostramos — e nem percebemos.
Outro dia, encontrei um colega da faculdade que há tempos não via. Ele me olhou de cima a baixo e disse: “O tempo não passa para você. Continua com os cabelos pretos e em forma!”
Respondi com gentileza: “São seus olhos, companheiro.”
Por dentro, nenhuma emoção exagerada. Apenas reconhecimento. Gratidão pelo elogio, como sempre faço. Mas a verdade é que eu sei: não aparento ser mais jovem do que sou. Só os cabelos, que insistem em se manter quase pretos — já flertando com os grisalhos. E tudo bem.
Não tenho vaidade com minha aparência. Só não gosto de parecer doente. O semblante abatido, o olhar apagado — isso me incomoda. Quando me sinto assim, desanimado, sem energia para sair ou me arrumar, dou uma chacoalhada no corpo e penso:
“Você ainda está vivo. Então se componha. E cumpra sua missão.”
Nos dias em que durmo mal, começo a manhã com calma. Sigo um ritual silencioso: uma coisa de cada vez, com atenção, organização e presença. Me visto como deve ser. E, se for atender um cliente ou paciente, faço meus exercícios vocais. Porque minha fala precisa estar inteira.
Sou consultor. Também sou psicanalista. Não posso me apresentar de qualquer jeito diante de alguém que me procura em crise, em busca de orientação ou escuta. Minha presença importa. Meu tom importa. A maneira como uso a persona — essa máscara necessária — também importa.
Muitos veem o ego como vilão. Mas eu o vejo como um aliado — quando educado, consciente e a serviço da vida. Ele me ajuda a não me abater diante das provações, a levantar quando estou sem forças, a lembrar que minha imagem e minha fala impactam o outro.
Então, se um dia você acordar esgotado, sem energia mental, lembre-se:
Você não é uma ilha.
Você está em relação.
E sua presença — no tom de voz, na forma de olhar, no modo de escutar — faz diferença.
Seja autêntico, sim. Mas não descuide da sua persona.
Não apenas pelo seu ego. Mas pela qualidade das suas relações.
Não finja ser forte quando está fraco — busque ajuda.
Mas quando estiver em pé, mesmo que trêmulo, vista-se de presença.
E cumpra sua missão.
Hoje, em especial, estou trabalhando no texto que espero que em breve se torne meu novo romance.
Estou muito animado. É um trabalho prazeroso e instigante — porque estou, de certo modo, olhando no fundo da minha alma. Sim, é uma missão. E estou levando isso muito a sério: sem vaidades, mas com muita determinação e paixão.
Esse texto nasceu também desse estado de presença. E desejo que ele, de alguma forma, alcance você aí do outro lado.

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