Reflexão inspirada por um imprevisto na estrada
Ontem amanheci refletindo sobre uma prova da pós-graduação em Psicologia Positiva e Mindfulness, especificamente sobre o conceito de flow. Entendi que, em essência, trata-se de cultivar um estado de presença — aquela atenção viva que nos conecta com o ritmo natural das coisas. Talvez seja isso: estar desperto para os próprios pensamentos, perceber as nuances do cotidiano e, ao invés de resistir ou forçar, seguir o curso com confiança.
Essa ideia ganhou contornos reais no mesmo dia, durante um episódio inesperado. A Deise, minha companheira, participaria de uma competição de corrida. Saímos cedo, com o Jr no banco de trás, e rodamos cerca de 40 km rumo ao local da prova. Mas, no meio do trajeto, o carro apresentou um alerta de superaquecimento. Eu até vi o aviso no painel, mas insisti em seguir por mais alguns quilômetros — até que precisei parar, por instinto, num pequeno recuo da pista.
Era um local ermo, quase meio-dia, sob o sol escaldante da Amazônia ocidental. Abri o capô, mas não consegui abrir o reservatório de água. Em poucos minutos, uma caminhonete encostou. Um homem desceu com um galão de 20 litros, encheu o reservatório sem hesitar e indicou um posto desativado a 10 km dali, onde haveria sinal de celular para pedir socorro. Seguimos sua dica. Enquanto esperávamos pelo resgate, a Deise conseguiu almoçar tranquilamente, e o Jr dormia sob uma sombra agradável. Tudo fluiu.
Depois do socorro, voltamos para casa, trocamos de carro e retornamos à estrada. Mas algo havia mudado. O tráfego de caminhões era intenso, o tempo parecia travado — e eu, geralmente calmo, estava irritado e impaciente. De repente, o Jr começou a chorar como nunca. Lágrimas verdadeiras, algo raro vindo dele. Estávamos próximos do ponto onde tudo havia começado, e, naquele instante, a Deise — serena, bem-humorada e decidida — disse com doçura:
“Não é para continuarmos. Vamos voltar pra casa.”
E voltamos.
O mais curioso de tudo foi o estado de espírito dela. A Deise, que costuma ser mais ansiosa, esteve tranquila o tempo todo. Não reclamou. Não pressionou. Estava em sintonia com algo maior — com o fluxo da própria existência.
E eu percebi: às vezes, o verdadeiro flow não é o nosso. É o de quem está ao nosso lado.
E, naquele dia, era ela quem estava guiando pela alma.

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