A rejeição dói. Às vezes, mais do que um machucado físico. E isso não é exagero — a ciência já demonstrou que nosso cérebro ativa as mesmas áreas responsáveis pela dor física quando somos rejeitados. Mas por que isso nos abala tanto?
Na clínica psicanalítica, a questão da rejeição é uma visita constante. Recentemente, uma jovem universitária de 21 anos disse no divã: “Doutor, sinto até dor nos ossos quando sou rejeitada. Eu queria, de todo meu coração, que minha cunhada gostasse de mim.”
Essa dor profunda revela algo essencial: nossa necessidade de pertencimento.
Desde o nascimento, dependemos da aceitação. Primeiro dos que cuidam de nós, depois do grupo. Na ancestralidade humana, ser excluído era, literalmente, uma ameaça à sobrevivência. Hoje, a exclusão continua ferindo — mas em forma de angústia, ansiedade, tristeza e sensação de inadequação.
Quando o “não” atual reativa feridas antigas
A dor da rejeição raramente é só sobre o momento presente. Muitas vezes, ela reabre antigas feridas emocionais: uma infância em que não fomos vistos, um amor negado, a impressão de nunca sermos bons o bastante.
A psicanálise nos ensina que o inconsciente guarda essas marcas. Diante de uma rejeição, ele as reativa com força. É como se o “não” de hoje ecoasse todos os “nãos” que, um dia, nos calaram — e ficaram sem nome.
A dor de não ser desejado
O psicanalista Jacques Lacan dizia que o ser humano se constitui a partir do desejo do Outro. Precisamos ser desejados para existir simbolicamente. Quando alguém nos rejeita, isso atinge nosso núcleo mais sensível: o medo de não sermos nada para aquele cujo olhar nos importa.
E essa é uma dor real. Uma ferida na imagem que fazemos de nós mesmos — o espelho interno onde sustentamos nossa autoestima. Por isso, tantas pessoas se sentem diminuídas, invisíveis ou até mesmo em crise de identidade após uma rejeição.
E se a rejeição for um chamado?
Na psicologia analítica de Jung, a rejeição pode ser vista de outra forma: como um chamado à individuação, ou seja, um convite para nos tornarmos quem realmente somos — além das aparências, dos papéis sociais e da necessidade de agradar.
Ser rejeitado pode abalar a persona (a máscara que usamos para o mundo), mas também pode ser o início de uma travessia interior. A pergunta que surge é poderosa: Quem sou eu quando o outro não me valida?
Essa pergunta pode abrir caminhos de cura e autodescoberta que estavam adormecidos.
A sombra que emerge
A rejeição também pode nos colocar frente a frente com aspectos de nós mesmos que preferimos ignorar: nossa carência, orgulho, medo da solidão. Jung chamava isso de sombra — tudo aquilo que reprimimos ou escondemos.
Mas integrar a sombra é uma das etapas mais transformadoras do autoconhecimento. O desconforto que sentimos pode ser o início de uma reconstrução mais autêntica.
A cura começa quando deixamos de terceirizar nosso valor
Sim, ser rejeitado dói. Mas essa dor pode carregar um presente oculto: o convite para voltar-se para si mesmo. Para perceber que seu valor não pode depender do olhar alheio. Para se fortalecer, se acolher, se respeitar.
Porque, no fim das contas, quem nunca foi rejeitado… talvez nunca tenha ousado se mostrar de verdade.

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