Hoje cedo, enquanto esperava o semáforo abrir, vivi um daqueles momentos silenciosos em que algo nos atravessa e revela o óbvio: estamos mentindo sobre o que sentimos.

Não com palavras — mas com ausências.
Com a máscara no rosto. Com o emoji enviado no lugar do desabafo. Com a pressa em responder o que não sentimos, apenas para não parecer estranho.

Observei, ali parado, rostos de mulheres, jovens em sua maioria.
Uma garota de bicicleta, com o olhar voltado para dentro, como quem busca em si mesma um sinal de alerta, algo que denunciasse o que sua roupa talvez revelasse — será que dormiu fora de casa? Era segunda-feira. Talvez lutasse para parecer “ok”.

Outra mulher, de meia-idade, olhava fixamente para o nada. Não era um olhar vazio — era um olhar preso. Talvez à rotina, à dor de um papel que não escolheu desempenhar. Talvez estivesse apenas exausta de sustentar algo que não a representa mais.

Mais à frente, em frente ao colégio cívico-militar, os jovens uniformizados. Os olhos das meninas diziam muito. Tantas expressões distintas — tensão, angústia, desconexão. E me ocorreu: se cada uma delas tivesse que se comunicar agora pelo WhatsApp, o que mandariam? Qual emoji usariam para representar aquele instante íntimo?

Talvez o da carinha sorrindo. Talvez um coração. Talvez nenhum.
Mas dificilmente algo verdadeiro.

A doença da comunicação superficial

A modernidade nos treinou para responder rápido, parecer bem e evitar o incômodo de demonstrar fragilidade. E nesse processo, padronizamos nossas emoções a ponto de mentir para nós mesmos. Enviamos mensagens que não sentimos. Concordamos com o que não queremos. Ocultamos o que nos corrói — e tudo isso em nome de uma funcionalidade que nos desumaniza.

Estamos adoecendo com essas pequenas mentiras.
Elas se acumulam como poeira fina, imperceptível, mas constante.
No fim do dia, não sabemos mais o que sentimos de verdade.

E o que isso tem a ver com autoconhecimento?

Tudo.

Porque não há jornada interior sem verdade emocional.
Porque não há cura sem escuta do que dói de fato.

E talvez esteja na hora de nos rebelarmos — com coragem — contra esse modelo emocional fast-food que nos ensinaram a consumir. Talvez seja hora de demorar-se numa conversa, de dizer “hoje não estou bem”, de abandonar o emoji e escrever o que se sente, com todas as letras — ainda que trêmulas.

Exercício Reflexivo: Descodificando suas mensagens

Pegue seu celular.
Abra a última conversa que teve com alguém importante — um amigo, familiar ou parceiro.

Agora, observe:

  • Quantas vezes você usou emojis no lugar de palavras?
  • Alguma mensagem enviada omitiu o que você realmente estava sentindo?
  • Houve um momento em que você quis dizer outra coisa, mas recuou?

Feche os olhos por um instante e pergunte a si mesmo:
“O que eu não disse hoje?”

Depois, anote. Com calma.
Não precisa enviar.
Mas precisa, talvez, começar a se ouvir.

A coragem de dizer o que sente

A alma não fala por atalhos.
Ela não envia “kkks” para camuflar tristeza.
Ela não diz “tá tudo bem” quando está implorando por escuta.

A alma sussurra em olhares como os que vi naquela manhã:
olhares que carregam verdades sufocadas por hábitos digitais e máscaras sociais.

Talvez o novo ato de rebeldia seja esse:
dizer o que sente.
Com palavras inteiras.
Com presença.
Com silêncio, se for preciso.
Mas sem mentiras.

Porque cada vez que você nega o que sente,
não é o outro que perde — é você que se perde de si.

E nada adoece mais do que essa separação.

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Sou Elizeu

O que posso dizer sobre mim? Sou aquariano, nascido no Sul e criado na Amazônia Ocidental — com os olhos voltados para o céu e o coração profundamente enraizado na terra.

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