Há quem espere pela sensação de “estar pronto” antes de dar passos importantes na vida. Mas e se esse momento nunca chegar? Neste texto, compartilho uma reflexão que atravessa minha clínica e minha própria vida: a coragem de agir apesar da dúvida.
A Geração do “Ainda Não Estou Pronto”
Durante sessões de psicanálise com pacientes jovens, frequentemente ouço, ao falarem de seus projetos, a frase: “Ainda não me sinto pronta para…”. Essa expressão revela uma inquietação recorrente entre os jovens contemporâneos, que vivem sob intensa pressão por desempenho e sucesso precoce. Nesse contexto, a psicanálise se torna um espaço fundamental para escuta e elaboração de angústias relacionadas à identidade, escolhas e medo do fracasso. Essas palavras me fazem refletir sobre a crença ilusória de que existe um estado perfeito de “estar preparado” para a vida.
A Coragem de Ser Imperfeito
A pesquisadora Brené Brown sintetiza muito bem esse sentimento quando diz: “Ser ‘perfeito’ e ‘à prova de bala’ são conceitos bastante sedutores, mas que não existem na realidade humana. Devemos respirar fundo e entrar na arena, qualquer que seja ela, em vez de nos sentarmos à beira do caminho, vivendo de julgamentos e vulnerabilidade. Isso é a coragem de ser imperfeito. Isso é viver com ousadia.”
Esperar Demais é Também uma Escolha
Na jornada do autoconhecimento, frequentemente enfrentamos essa ideia ilusória de prontidão absoluta. Isso se manifesta não apenas em tarefas administrativas, mas também em decisões afetivas, como iniciar ou terminar um relacionamento, mudar de cidade, escolher uma carreira ou mesmo conversar com alguém sobre sentimentos difíceis. Esperamos por um sinal claro de prontidão que raramente chega — e, assim, adiamos movimentos importantes da vida. Lembro-me vivamente de como essa questão impactou minha própria vida. Durante muito tempo, tive o hábito de procrastinar tarefas administrativas, como declarar imposto de renda ou planejar o orçamento anual — atividades essenciais para manter a saúde financeira. Eu sempre as deixava para o último momento possível, exatamente por acreditar que precisaria de um momento ideal para realizá-las.
Prontidão e Vulnerabilidade
Trago essa reflexão para nosso domingo: Será que realmente sabemos quando estamos prontos para agir ou decidir algo importante em nossas vidas? Como, por exemplo, sair da casa dos pais, terminar um namoro que já não faz sentido ou assumir uma escolha profissional que não agrada à família? Essas decisões pedem coragem, não perfeição. Evidentemente, excetuando situações específicas como exames acadêmicos ou técnicos, nas quais o preparo formal é indispensável, a vida raramente nos oferece momentos de prontidão absoluta. Muitas vezes, estar pronto significa simplesmente aceitar nossa vulnerabilidade e agir apesar dela. Quando reconhecemos nossas limitações sem nos envergonhar delas, abrimos espaço para uma vida mais autêntica. A vulnerabilidade, longe de ser fraqueza, é ponte para conexões verdadeiras e para escolhas que refletem quem realmente somos. Ao aceitá-la, nos libertamos da exigência de perfeição e encontramos força justamente onde antes havia medo.
Comece Incompleto — Mas Comece
Sabemos também que não agir já é, em si, uma escolha. Portanto, proponho pensarmos juntos sobre esse sentimento: quando realmente estaremos prontos para a existência? Especialmente, qual seria o momento ideal para buscar ajuda profissional, fazer uma análise e iniciar a jornada do autoconhecimento?
Talvez o melhor momento seja sempre o agora. Como disse Sêneca, “enquanto se espera viver, a vida passa”. Muitas vezes ficamos paralisados aguardando a sensação de prontidão que nunca chega, quando na verdade é o primeiro passo, mesmo trêmulo, que nos revela o caminho. Cada instante vivido com autenticidade é um ensaio daquilo que buscamos ser. Porque estar pronto não é uma questão de perfeição, mas de coragem para começar exatamente onde estamos.
O silêncio é o solo fértil onde o pensamento floresce — e onde a alma, enfim, se escuta.
E você, tem esperado o momento ideal para dar um passo importante? Deixe seu comentário abaixo: o que te impede — ou te impulsiona — a começar?

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