Parece que foi Spinoza quem disse que um dos maiores erros humanos é associar a felicidade ao controle absoluto das circunstâncias. Essa ideia tem tudo a ver com minha atual visão de mundo.
Tenho percebido que, à medida que deixo de emitir juízos de valor e abandono a ilusão de controlar o que acontece ao meu redor, algo muda dentro de mim. A angústia vai perdendo força. Como se o simples ato de soltar o controle dissolvesse o peso.
Há uma cena que se repete, curiosamente, como um reflexo automático. Sempre que me sinto decepcionado ou percebo um declínio no meu estado mental — algo que ameaça virar angústia — uma canção da minha juventude surge na minha mente, como se fosse uma programação interna. É Lulu Santos cantando:
“Eu não pedi pra nascer / Eu não nasci pra perder / Nem vou sobrar de vítima / Das circunstâncias.”
Essa lembrança me resgata. O mal-estar some, como uma névoa que se dissipa quando o sol aparece. E a vida simplesmente… segue.
Atribuo esse desprendimento à minha evolução psíquica — um processo silencioso de auto-observação, dor e aceitação, que me ensinou a distinguir o que posso transformar daquilo que apenas preciso permitir que passe. Hoje, consigo perceber com mais clareza o que me cabe enfrentar… e o que posso — ou devo — deixar ir.
E posso afirmar: viver assim é mais leve. A realidade não precisa ser controlada para ser vivida.
Afinal, quem realmente tem o controle das circunstâncias? Talvez esse aparente caos obedeça a uma ordem maior — uma lei universal, algo que pertença à própria natureza do universo.
Toda tentativa de controle absoluto aprisiona a alma.
E ninguém encontra a felicidade por esse caminho.


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